O Diário Oficial desta terça-feira, 8 de setembro, publicou o registro do Aquipta na Anvisa. É a chegada ao Brasil do atogepanto, um comprimido tomado todo dia para prevenir crises de enxaqueca.
Como escrevo no mesmo dia da publicação, prefiro separar o que está na resolução do que ainda não se sabe. Na resolução estão a empresa, o princípio ativo, as apresentações e a validade do registro. Fora dela ficam o preço, a data de chegada às farmácias e o texto da bula brasileira, que é o documento que define oficialmente para quem o remédio é indicado aqui.
Adianto a parte que costuma se perder no meio da notícia: o atogepanto funciona, o efeito médio é mais modesto do que as manchetes sugerem, e ele não vai estar na farmácia tão cedo.
Neste artigo, você vai entender:
- O que a resolução da Anvisa diz
- O que é o atogepanto e como ele age
- O que os estudos mostram
- O que ele acrescenta ao que já existe no Brasil
- Para quem ele pode fazer sentido
- Efeitos adversos e interações
- Por que registro não é remédio na prateleira
O que a resolução da Anvisa diz
A Resolução-RE nº 3.458, assinada em 3 de setembro e publicada no Diário Oficial de hoje, registra o Aquipta em nome da AbbVie Farmacêutica, com o princípio ativo atogepanto hidratado. Foram autorizadas duas apresentações, comprimidos de 10 mg e de 60 mg, as duas em caixa com 28 unidades. O registro vale até setembro de 2036.
A resolução classifica o produto como medicamento novo, categoria usada para moléculas que estreiam no país. Não é renovação de registro nem genérico.
Um detalhe da tabela do Diário Oficial gerou confusão na repercussão da notícia: ao lado de cada apresentação aparece o número 36 meses. Esse é o prazo de validade do comprimido, o tempo até ele vencer na caixa. A autorização sanitária em si é a data de 2036.
O que a resolução não traz é o texto da indicação aprovada. Ela lista empresa, princípio ativo, apresentações e números de registro, e é só isso que dá para afirmar com base nela. As informações sobre eficácia e efeitos adversos que uso a seguir vêm do resumo público que a agência europeia de medicamentos publica sobre o Aquipta.
O que é o atogepanto e como ele age
O atogepanto é um gepante, uma classe de comprimidos que bloqueia o receptor do CGRP. O CGRP é uma proteína que participa da transmissão da dor e da inflamação ao redor dos vasos durante a crise de enxaqueca, e virou o principal alvo dos tratamentos desenvolvidos nos últimos anos. A agência europeia acrescenta que o atogepanto também se liga ao receptor da amilina-1, e registra que o mecanismo exato ainda não é totalmente conhecido.
A diferença em relação à maior parte do que temos hoje está na origem da molécula. Propranolol, amitriptilina, nortriptilina, topiramato e venlafaxina, todos com artigo próprio neste blog, foram criados para pressão alta, depressão e epilepsia, e só depois se descobriu que ajudavam na enxaqueca. Funcionam, custam pouco e seguem sendo primeira escolha em muita gente. Mas nenhum deles foi feito pensando nessa doença. O atogepanto foi.
O que os estudos mostram
O resumo europeu descreve dois estudos principais de prevenção.
Em 882 pacientes com pelo menos quatro crises por mês, doze semanas de tratamento derrubaram os dias de enxaqueca de cerca de 8 por mês para cerca de 3 a 4. No grupo que recebeu placebo, a queda foi para cerca de 5 por mês.
Em 760 pacientes com pelo menos 15 dias de dor de cabeça por mês, dos quais 8 eram de enxaqueca, os dias de enxaqueca caíram de cerca de 19 para cerca de 12. Com placebo, foram para 14.
Quem lê rápido guarda a queda pela metade. Quem lê com atenção percebe que a distância para o placebo é de um a dois dias por mês. As duas coisas são verdade ao mesmo tempo, e a segunda não é defeito do remédio: a resposta ao placebo na enxaqueca é sabidamente alta, o que aperta a margem de qualquer preventivo em estudo. Na prática, um ou dois dias a menos por mês muda a vida de quem passa oito dias em crise, e pode não compensar para quem tem quatro.
Existe ainda um dado que anda circulando junto com essa notícia e que precisa de contexto. Em junho de 2026, a Comissão Europeia ampliou o uso do Aquipta na Europa também para tratar a crise, com base em um estudo de 1.328 adultos no qual cerca de 24% ficaram sem dor em duas horas, contra cerca de 13% com placebo. Essa decisão é europeia. O que vale no Brasil é a bula aprovada aqui, e ela ainda não foi divulgada.
Uma coisa que digo em consulta quando sai remédio novo: notícia de aprovação não é motivo para trocar tratamento que está funcionando. E, sem diário de crises, não dá para saber se está funcionando. Contar de memória quantos dias de dor você teve no mês passado é o jeito mais rápido de tomar uma decisão ruim, seja para trocar, seja para manter.
O que ele acrescenta ao que já existe no Brasil
O ano foi movimentado para quem trata enxaqueca. Em maio a Anvisa registrou o rimegepanto, o Nurtec ODT, tema de outro artigo aqui, que serve tanto para a crise quanto para prevenir enxaqueca episódica, neste caso em dias alternados. O atogepanto entra com outra proposta: comprimido comum, tomado diariamente, com foco na prevenção.
Fora dos gepantes, quem precisa de prevenção já contava com os anticorpos monoclonais contra o CGRP, muito eficazes, mas injetáveis e com logística de refrigeração; com a toxina botulínica na enxaqueca crônica, aplicada a cada três meses em consultório e discutida em outro artigo deste blog; e com os preventivos clássicos.
O que o atogepanto acrescenta, então, é uma opção oral moderna de uso diário para quem não respondeu aos preventivos antigos, não tolerou os efeitos deles ou não quer injeção. Há também uma vantagem menos comentada: diferentemente dos analgésicos comuns e dos triptanos, não se descreve com os gepantes o quadro de cefaleia por uso excessivo de medicação, problema que trato em outro artigo e que é uma das principais armadilhas de quem tem dor frequente.
Ser mais novo não significa ser melhor para todo mundo. Significa ter mais uma saída quando as anteriores não deram certo.
Para quem ele pode fazer sentido
O uso preventivo, segundo o resumo europeu, é voltado a adultos com pelo menos quatro dias de enxaqueca por mês. Dentro desse grupo, os candidatos mais claros são quem já tentou preventivos clássicos sem resultado suficiente, quem parou por causa dos efeitos adversos, quem tem contraindicação a eles, como asma no caso dos betabloqueadores, e quem prefere ou precisa de comprimido em vez de injeção.
Antes de pensar em remédio novo, porém, é preciso ter certeza do diagnóstico. Boa parte das pessoas rotuladas como enxaqueca refratária está, na verdade, com dor de cabeça por uso excessivo de analgésico, com apneia do sono não tratada, com um gatilho evidente e não controlado, ou com outro tipo de cefaleia. Preventivo novo em cima de diagnóstico errado continua não funcionando, só que mais caro.
Efeitos adversos e interações
Os efeitos adversos mais frequentes no uso preventivo, segundo o resumo europeu, podem atingir até uma em cada dez pessoas: náusea, prisão de ventre, cansaço, sonolência, redução do apetite e perda de peso. A agência europeia classifica a maioria como leve ou moderada.
Três pontos merecem conversa com o médico antes de começar. O atogepanto é processado pelo fígado por uma via que sofre interferência de vários outros medicamentos, o que pode exigir ajuste de dose. Doença hepática muda a conduta. E os dados na gestação e na amamentação são limitados.
Sobre as duas apresentações registradas, de 10 mg e 60 mg: a escolha da dose é médica e depende do quadro e das outras condições da pessoa. Não é uma decisão de balcão de farmácia.
Por que registro não é remédio na prateleira
O registro autoriza a venda no país, e é aí que a maioria das notícias para. Antes do lançamento, o preço máximo ainda precisa ser definido pela Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos, a CMED. Depois disso vêm produção, distribuição e chegada efetiva às farmácias. Não há data divulgada.
Sobre cobertura, duas informações que evitam frustração. Plano de saúde costuma não pagar medicamento oral de uso em casa, que em regra fica fora do rol da ANS. E o SUS segue outro caminho, mais longo: a incorporação depende de avaliação da Conitec, e registro na Anvisa não gera oferta automática na rede pública.
O preço não foi divulgado. Como referência para quando ele sair, cada caixa traz 28 comprimidos.
Quando procurar um neurologista?
Procure avaliação se você tem quatro ou mais dias de enxaqueca por mês, se as crises atrapalham trabalho, estudo ou vida em casa, se os tratamentos que já usou não funcionaram ou causaram efeitos que você não tolera, e principalmente se você toma analgésico para dor de cabeça em dez ou mais dias por mês. Procure atendimento imediato diante de dor de cabeça súbita e explosiva, dor com febre e rigidez de nuca, dor acompanhada de fraqueza ou alteração da fala e da visão, ou dor de cabeça de padrão completamente novo depois dos 50 anos.
Conclusão
O Aquipta está registrado na Anvisa desde a resolução publicada hoje, nas apresentações de 10 mg e 60 mg com 28 comprimidos. É um gepante oral de uso diário, feito para a enxaqueca, que nos estudos reduziu à metade os dias de crise na forma episódica, com uma diferença de um a dois dias por mês em relação ao placebo. Isso é um ganho real para quem tem muitos dias de dor, e uma opção a mais para quem não se deu bem com os preventivos antigos ou não quer injeção. Ainda faltam o preço, definido pela CMED, e a distribuição. Até lá, a providência mais útil não depende do lançamento: anotar as crises num diário e levar esse número à consulta.
Escrito e revisado por Dr. Brendow Martin Neurologista — CRM/CE 22318 · RQE 18935 Última revisão: 08/09/2026
Fontes consultadas:
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