A pessoa vira na cama para o lado e o quarto começa a girar. Dura poucos segundos, passa, e volta a acontecer quando ela deita, levanta ou olha para cima para pegar algo em uma prateleira alta. Esse padrão é tão característico que já orienta o diagnóstico antes de qualquer exame: é a vertigem posicional paroxística benigna, conhecida pela sigla VPPB.

É a causa mais comum de vertigem verdadeira, aquela em que existe sensação de rotação. Também é a mais frequentemente rotulada como labirintite, um nome popular que acaba levando ao tratamento errado. A VPPB não é inflamação do labirinto: é um problema mecânico, com solução mecânica, e é uma das poucas causas de tontura que pode ser resolvida na própria consulta.

Neste artigo, você vai entender:

  • Por que a tontura aparece ao mudar de posição
  • Por que remédio para labirinto não resolve o problema
  • Como é feito o diagnóstico no consultório
  • Como funciona o tratamento por manobra
  • Quais sinais indicam que a causa pode ser mais grave

Por que a tontura aparece ao mudar de posição

Dentro do ouvido interno existem estruturas em forma de canal, os canais semicirculares, preenchidas por líquido, que informam ao cérebro cada movimento da cabeça. Ao lado delas ficam pequenos cristais de carbonato de cálcio, os otólitos, que normalmente estão fixos em outra região do sistema vestibular.

Na VPPB, alguns desses cristais se desprendem e caem dentro de um dos canais. A partir daí, cada mudança de posição da cabeça movimenta os cristais soltos, que deslocam o líquido do canal e disparam um sinal falso de rotação. O cérebro recebe a informação de que a cabeça está girando quando ela apenas mudou de posição, e o resultado é a vertigem intensa e breve.

Isso explica todas as características do quadro: a tontura é desencadeada por movimento, dura segundos, é bem mais intensa do que longa, e vem sempre com os mesmos gatilhos, como deitar, levantar, virar na cama e inclinar a cabeça para trás.

Por que remédio para labirinto não resolve

Esse é o ponto mais importante deste artigo. Como o problema é a presença física de cristais dentro do canal, nenhuma medicação faz esses cristais saírem de lá. Os chamados remédios para labirinto são supressores vestibulares e antivertiginosos: eles reduzem a intensidade da sensação, mas não corrigem a causa.

Pior do que isso, o uso prolongado desses medicamentos tem dois problemas reais. Primeiro, eles atrapalham o mecanismo de compensação do próprio sistema vestibular, que precisa do estímulo para se adaptar. Segundo, e mais comum na prática, é que a pessoa fica meses em tratamento medicamentoso para um quadro que se resolveria em uma ou duas sessões de manobra.

Se a sua tontura gira, dura segundos e aparece sempre que você muda de posição, ela provavelmente tem tratamento por manobra, feito no consultório, e não por remédio de uso contínuo. Vale levar exatamente essa descrição para a consulta, porque ela é o dado que mais orienta o diagnóstico.

Como é feito o diagnóstico no consultório

O diagnóstico é clínico e feito por manobras posicionais, sendo a mais usada a manobra de Dix-Hallpike. O médico deita o paciente e posiciona a cabeça de forma específica, reproduzindo de propósito o gatilho da tontura.

O que confirma o diagnóstico não é apenas a vertigem que o paciente sente, mas o nistagmo, um movimento involuntário e característico dos olhos que aparece após alguns segundos de latência, aumenta, diminui e desaparece. O padrão desse movimento indica qual canal está acometido e de que lado, informação necessária para escolher a manobra de tratamento correta.

Nos casos típicos, com exame neurológico normal, não é necessário fazer ressonância nem tomografia. Exame de imagem entra em cena quando existem sinais de alarme, listados adiante.

Como funciona o tratamento por manobra

O tratamento consiste em manobras de reposicionamento, que usam a gravidade para conduzir os cristais de volta a uma região do sistema vestibular onde eles não causam sintoma. A mais conhecida é a manobra de Epley, aplicada quando o canal posterior é o acometido, que é a situação mais comum. Existem manobras específicas para os outros canais.

Alguns pontos práticos que ajudam a ter expectativas realistas:

  • A eficácia é alta, e muitos pacientes melhoram já na primeira sessão
  • Durante a manobra é esperado sentir vertigem intensa por alguns segundos, o que faz parte do procedimento
  • Pode ser necessário repetir a manobra em uma segunda consulta
  • É comum permanecer alguns dias com uma sensação leve de instabilidade, diferente da vertigem rotatória original, e isso melhora com o movimento
  • A VPPB pode voltar meses ou anos depois, e isso não significa que o tratamento falhou
  • A manobra precisa de diagnóstico do lado e do canal corretos, por isso não é indicado tentar reproduzir vídeos da internet por conta própria

Quais sinais indicam que a causa pode ser mais grave

Nem toda tontura é VPPB, e algumas causas envolvem o cérebro, não o ouvido. Procure avaliação com urgência se a tontura vier acompanhada de:

  • Tontura contínua, que não passa em minutos e não depende de posição
  • Fala arrastada, boca torta, fraqueza ou formigamento em um lado do corpo
  • Visão dupla ou dificuldade importante para caminhar e se manter em pé
  • Dor de cabeça intensa e súbita, diferente das habituais
  • Perda auditiva nova, com ou sem zumbido, temas abordados em outro artigo deste blog
  • Vertigem após trauma na cabeça ou no pescoço

Esses sinais afastam do diagnóstico de VPPB e aproximam de causas centrais, incluindo o AVC de circulação posterior, discutido em outros artigos deste blog.

Quando procurar um neurologista?

Vale procurar avaliação quando a tontura se repete, quando ela não responde ao que já foi tentado, quando existe dúvida entre causa periférica e central, ou quando aparece qualquer um dos sinais de alarme acima. Também vale a consulta quando o diagnóstico foi de labirintite e o tratamento medicamentoso se arrasta há meses sem melhora, porque muitos desses casos são VPPB não diagnosticada.


Conclusão

A vertigem posicional paroxística benigna é a causa mais comum de vertigem rotatória e tem um padrão inconfundível: crises de segundos, disparadas por mudança de posição da cabeça. Como o mecanismo é a presença de cristais soltos dentro de um canal do ouvido interno, o tratamento correto é mecânico, feito por manobras de reposicionamento, e não medicamentoso. Reconhecer esse padrão e afastar os sinais de alarme é o que separa um problema resolvido em consulta de meses de remédio sem necessidade.


Escrito e revisado por Dr. Brendow Martin Neurologista — CRM/CE 22318 · RQE 18935 Última revisão: 09/08/2026

Fontes consultadas: