Queimação nos pés que aparece quando a pessoa deita, formigamento que sobe pelos dedos, sensação de andar sobre areia ou de meia apertada quando não há meia nenhuma. Esse conjunto de sintomas é uma das queixas mais frequentes em consulta de neurologia, e em quem tem diabetes ele tem um nome bem definido: neuropatia diabética.
O excesso prolongado de glicose no sangue lesa as fibras nervosas mais finas e mais longas do corpo. Como as fibras que chegam aos pés são as mais longas de todas, elas são as primeiras a sofrer. Por isso o quadro clássico começa nas pontas dos dedos dos pés e vai subindo de forma simétrica, o padrão que os médicos chamam de bota e luva.
Neste artigo, você vai entender:
- Por que os sintomas começam nos pés e pioram à noite
- Quando a dormência é mais perigosa do que a dor
- Como é feito o diagnóstico e o que precisa ser afastado
- O que o tratamento realmente muda
- Os cuidados com os pés que evitam a complicação mais grave
Por que os sintomas começam nos pés e pioram à noite
As fibras nervosas longas dependem de um transporte de energia e nutrientes que percorre toda a extensão do nervo. A glicose elevada por muito tempo prejudica esse transporte e os pequenos vasos que nutrem o nervo, e a lesão aparece primeiro onde a distância é maior: os pés.
A piora noturna tem duas explicações que se somam. A primeira é a ausência de estímulos competindo pela atenção: durante o dia, movimento, pressão do calçado e outras sensações mascaram parte do desconforto, e à noite, no silêncio sensorial da cama, a queimação fica em primeiro plano. A segunda é que as fibras finas doentes disparam sinais de forma espontânea, sem estímulo real, e essa atividade fica mais evidente no repouso. O resultado é o relato clássico de quem não consegue encostar o pé no lençol.
Quando a dormência é mais perigosa do que a dor
Esse é o ponto mais importante deste artigo. A dor incomoda, mas protege, porque leva a pessoa ao médico. A dormência não dói, passa despercebida e retira o alarme natural do corpo.
Quando a sensibilidade protetora do pé se perde, uma bolha de sapato novo, uma pedra dentro do calçado, uma unha encravada ou uma pequena queimadura deixam de ser percebidas. A lesão evolui em silêncio, infecta e se transforma em úlcera. É essa sequência, e não a dor, que responde pela maior parte das amputações relacionadas ao diabetes. Ou seja: perder a dor não é melhorar, é mudar de risco.
Se você tem diabetes e percebeu que não sente mais a temperatura da água com os pés, ou que não notou um machucado até vê-lo, isso não é um sinal de melhora da neuropatia. É um sinal de que ela avançou, e é motivo para avaliação médica.
Como é feito o diagnóstico e o que precisa ser afastado
O diagnóstico é principalmente clínico, com exame neurológico que testa sensibilidade tátil, vibratória, térmica e dolorosa, além dos reflexos. O teste com monofilamento, feito no consultório, avalia justamente a sensibilidade protetora do pé.
Um cuidado essencial: nem todo formigamento em quem tem diabetes é neuropatia diabética. Outras causas precisam ser afastadas, porque algumas são tratáveis e reversíveis:
- Deficiência de vitamina B12, que fica ainda mais relevante em quem usa metformina por tempo prolongado, já que a medicação reduz a absorção da vitamina
- Hipotireoidismo
- Consumo importante de álcool
- Doença renal em estágio avançado
- Compressões localizadas de nervo, como a síndrome do túnel do carpo, discutida em outro artigo deste blog
- Doenças da coluna, quando a dor segue um trajeto de raiz nervosa e não o padrão simétrico em bota
A eletroneuromiografia não é obrigatória nos casos típicos, mas é útil quando o quadro é assimétrico, tem evolução rápida, atinge mais as mãos do que os pés ou vem com fraqueza importante, situações em que outro diagnóstico precisa ser considerado.
O que o tratamento realmente muda
Vale separar duas coisas que costumam ser confundidas. O controle da glicose é o que reduz a progressão da lesão nervosa, e é a única parte do tratamento que atua na causa. As medicações para dor neuropática aliviam o sintoma, mas não recuperam a fibra lesada.
As opções com melhor evidência para a dor da neuropatia diabética incluem a duloxetina, a pregabalina, a gabapentina e os antidepressivos tricíclicos como a amitriptilina, esta última também abordada em outro artigo deste blog. A escolha depende de idade, peso, sono, pressão arterial, função renal e das outras medicações em uso, e não existe uma opção que seja a melhor para todo mundo. Analgésicos comuns e anti-inflamatórios têm papel muito limitado nesse tipo de dor, e opioides não são a escolha adequada para uma dor crônica como essa.
Também fazem diferença o controle da pressão e do colesterol, a redução do álcool, a interrupção do tabagismo e a atividade física regular, porque todos afetam a saúde dos pequenos vasos que nutrem o nervo.
Os cuidados com os pés que evitam a complicação mais grave
- Olhar os pés todos os dias, inclusive entre os dedos e a sola, usando um espelho se necessário
- Testar a água do banho com a mão ou com o cotovelo, nunca com o pé
- Nunca andar descalço, mesmo dentro de casa
- Conferir o interior do calçado com a mão antes de calçar
- Cortar as unhas retas e evitar retirar calos por conta própria
- Procurar atendimento no mesmo dia diante de qualquer ferida, bolha, rachadura ou mudança de cor no pé
Quando procurar um neurologista?
Procure avaliação quando o formigamento ou a queimação atrapalham o sono ou a rotina, quando existe perda de sensibilidade nos pés, quando o quadro é assimétrico ou vem com fraqueza, e quando a dor não melhora apesar do controle da glicose. Também vale a consulta para revisar se existe outra causa somada ao diabetes, o que é mais comum do que parece.
Conclusão
A neuropatia diabética começa nas fibras nervosas mais longas do corpo, por isso aparece primeiro nos pés e piora no repouso noturno. A dor merece tratamento, mas é a perda de sensibilidade que traz o risco maior, porque abre caminho para feridas que passam despercebidas. Controlar a glicose muda a progressão da doença, as medicações controlam o sintoma, e o cuidado diário com os pés é o que evita a complicação mais grave.
Escrito e revisado por Dr. Brendow Martin Neurologista — CRM/CE 22318 · RQE 18935 Última revisão: 03/08/2026
Fontes consultadas:
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