Existe um quadro que se instala devagar em pessoas mais velhas e que costuma ser atribuído à idade: a marcha vai ficando arrastada e insegura, a memória piora, e começam a acontecer escapes de urina. Muitas famílias recebem esse conjunto de mudanças como envelhecimento normal ou como início de Alzheimer. Em uma parte dos casos, não é nenhum dos dois: é hidrocefalia de pressão normal, uma das poucas causas de demência que pode ser tratada com melhora real dos sintomas.
O nome descreve o mecanismo. O líquor, líquido que circula ao redor do cérebro e da medula, se acumula nas cavidades internas do cérebro, os ventrículos, que se dilatam. Ainda assim, a pressão medida no exame permanece dentro da faixa normal, o que explica a ausência dos sinais clássicos de pressão intracraniana alta e ajuda a entender por que o diagnóstico passa desapercebido com frequência.
Neste artigo, você vai entender:
- A tríade de sintomas que caracteriza o quadro
- Por que ele é confundido com Alzheimer e com o envelhecimento
- Como é feito o diagnóstico
- Em que consiste o tratamento e o que esperar dele
- Quem tem mais chance de melhorar com a cirurgia
A tríade de sintomas
O quadro clássico reúne três alterações, e a ordem em que elas aparecem é um dado importante:
- Alteração da marcha, quase sempre o primeiro sintoma. O passo fica curto e arrastado, os pés parecem colados ao chão, a base de sustentação alarga, e virar de direção exige vários passinhos. Muitos pacientes descrevem a sensação de estar com os pés imantados no piso.
- Alteração cognitiva, com lentificação do pensamento, dificuldade de atenção e de planejamento, apatia e esquecimentos. É um perfil mais de lentidão e de dificuldade executiva do que de perda de memória isolada.
- Perda do controle urinário, que começa como urgência para urinar e evolui para escapes.
Nem todo paciente tem os três sintomas de forma completa, principalmente no início. A alteração da marcha desproporcional ao restante do quadro é o achado que mais deve levantar a suspeita.
Por que é confundido com Alzheimer e com envelhecimento
Existem duas confusões frequentes, e as duas atrasam o diagnóstico.
A primeira é atribuir tudo ao envelhecimento. Andar mais devagar com a idade é esperado, mas andar arrastado, com passos curtos e dificuldade de virar, não é envelhecimento normal, é um sinal neurológico.
A segunda é o diagnóstico apressado de Alzheimer. No Alzheimer, a perda de memória recente domina o quadro por anos, e a marcha permanece preservada até fases avançadas, conforme discutido em outros artigos deste blog sobre perda de memória e Alzheimer. Na hidrocefalia de pressão normal, é o contrário: a marcha se altera primeiro e a alteração cognitiva tem cara de lentidão. Essa inversão de ordem é uma das pistas mais úteis.
Como é feito o diagnóstico
O diagnóstico combina o quadro clínico com exame de imagem e com testes que avaliam a resposta à retirada de líquor.
Na ressonância magnética ou na tomografia, observa-se dilatação dos ventrículos desproporcional à atrofia cerebral esperada para a idade, medida por índices específicos, além de outros achados sugestivos na distribuição dos sulcos cerebrais. Só a imagem, porém, não fecha o diagnóstico: ventrículos dilatados aparecem também em quadros de atrofia cerebral por outras causas, e é justamente esse ponto que gera diagnósticos equivocados.
O passo que mais orienta a decisão é o teste de retirada de líquor, feito por punção lombar com retirada de um volume determinado de líquido. A marcha e o desempenho cognitivo são avaliados antes e depois do procedimento, com testes padronizados. Quando há melhora objetiva, a chance de bom resultado com a cirurgia aumenta de forma significativa. Em casos selecionados, usa-se drenagem lombar externa por alguns dias, que tem valor preditivo ainda maior.
Vale dizer com clareza: ventrículos dilatados em um exame de imagem, isoladamente, não significam hidrocefalia de pressão normal, e não indicam cirurgia. O diagnóstico depende do conjunto entre clínica, imagem e resposta à retirada de líquor, avaliado por neurologista e neurocirurgião.
Em que consiste o tratamento
O tratamento é cirúrgico e consiste na implantação de uma derivação, uma válvula que drena o excesso de líquor dos ventrículos para a cavidade abdominal, na chamada derivação ventriculoperitoneal. Existem válvulas com pressão ajustável, que permitem regulagem depois da cirurgia sem novo procedimento.
Os resultados são melhores para a marcha, que muitas vezes melhora de forma perceptível. O controle urinário costuma melhorar em seguida. A parte cognitiva é a que responde de forma mais variável, e responde melhor quando o tratamento é feito cedo. Como toda cirurgia, existem riscos, incluindo infecção, obstrução da válvula e sangramentos, e por isso a indicação precisa ser individualizada.
O ponto central é o tempo. Quanto mais longa a evolução dos sintomas antes do tratamento, menor a chance de recuperação completa, porque parte da lesão se torna definitiva. Diagnóstico precoce muda o resultado.
Quem tem mais chance de melhorar com a cirurgia
- Pacientes em que a alteração da marcha é o sintoma predominante e apareceu primeiro
- Pacientes com sintomas de evolução mais curta, de meses a poucos anos
- Pacientes que apresentaram melhora objetiva após o teste de retirada de líquor
- Pacientes com imagem compatível e sem outras causas importantes de demência associadas
Quando procurar um neurologista?
Vale procurar avaliação quando uma pessoa mais velha começa a andar de forma arrastada e insegura, principalmente se isso vem junto com lentificação do pensamento e urgência ou escape de urina. Também vale reavaliar diagnósticos de demência já estabelecidos quando a alteração da marcha veio antes da alteração da memória, porque essa sequência não é o padrão do Alzheimer e merece investigação específica.
Conclusão
A hidrocefalia de pressão normal é uma das poucas causas de declínio cognitivo em que o tratamento pode devolver função, e sua marca é a ordem dos sintomas: primeiro a marcha arrastada, depois a lentificação do pensamento e a perda do controle urinário. O diagnóstico não se faz apenas com imagem, e depende da avaliação clínica somada ao teste de retirada de líquor. Como o resultado da cirurgia é melhor nos quadros de evolução mais curta, reconhecer esse padrão cedo é o que abre a chance de reverter o que muita gente aceita como envelhecimento inevitável.
Escrito e revisado por Dr. Brendow Martin Neurologista — CRM/CE 22318 · RQE 18935 Última revisão: 07/08/2026
Fontes consultadas:
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