Dor de cabeça em criança costuma gerar duas reações opostas, e as duas podem atrapalhar. A primeira é a minimização, quando a queixa é tratada como desculpa para não ir à escola. A segunda é o alarme máximo, quando a família assume que dor de cabeça em criança significa tumor.

A resposta está no meio. Dor de cabeça é comum na infância, e a maioria dos casos é de cefaleia primária, principalmente enxaqueca e cefaleia tensional, sem doença estrutural por trás. Ao mesmo tempo, existem sinais de alarme bem definidos que mudam completamente a conduta e pedem investigação. Reconhecer esses sinais é o que permite tranquilizar sem ser negligente.

Neste artigo, você vai entender:

  • Por que a enxaqueca em crianças é diferente da do adulto
  • Os sinais de alarme que pedem investigação
  • Os gatilhos mais comuns na infância
  • Como é feito o diagnóstico
  • Como é o tratamento, incluindo o cuidado com analgésicos

Por que a enxaqueca em crianças é diferente da do adulto

A enxaqueca na infância existe, é frequente e muitas vezes não é reconhecida, porque a família procura o padrão adulto e não encontra. As diferenças principais:

  • Duração menor: em crianças a crise pode durar duas horas, contra as quatro horas ou mais que caracterizam a crise no adulto
  • Localização: costuma ser dos dois lados, na testa e nas têmporas, e não de um lado só como é típico no adulto
  • Sintomas digestivos em primeiro plano: náusea, vômito e dor abdominal podem dominar o quadro, às vezes mais que a própria dor de cabeça
  • Palidez e olheiras, com a criança visivelmente abatida durante a crise
  • Alívio marcante com o sono: é muito característico a criança dormir e acordar bem
  • Comportamento durante a crise: a criança para de brincar, procura o quarto escuro e quer silêncio, um dado observacional que vale mais que qualquer descrição verbal em crianças pequenas
  • História familiar frequente de enxaqueca em pai ou mãe

Existem também apresentações que raramente são associadas à enxaqueca, como episódios recorrentes de dor abdominal sem outra causa e episódios de vertigem de curta duração, considerados formas relacionadas à enxaqueca em crianças.

Os sinais de alarme que pedem investigação

Estes são os pontos que justificam avaliação médica mais rápida e, em vários casos, exame de imagem:

  • Dor de cabeça que acorda a criança à noite, ou que está presente ao acordar de manhã
  • Vômitos matinais, principalmente sem náusea que os anteceda
  • Dor que piora ao tossir, ao fazer força, ao se abaixar ou ao esforço físico
  • Dor progressiva, que aumenta em frequência e intensidade ao longo de semanas
  • Dor sempre no mesmo ponto da cabeça, especialmente na região occipital
  • Alteração no exame neurológico, como estrabismo novo, visão dupla, desequilíbrio, fraqueza ou assimetria
  • Mudança de comportamento, queda no desempenho escolar ou regressão de habilidades já adquiridas
  • Crise epiléptica associada
  • Aumento anormal do perímetro cefálico em crianças pequenas
  • Dor de cabeça em criança com menos de seis anos, que exige avaliação mais cuidadosa
  • Dor de cabeça de início súbito e explosivo
  • Dor associada a febre com rigidez de nuca, situação de emergência
  • Dor de cabeça em criança com doença de base relevante, como câncer, imunossupressão ou derivação ventricular

Um ponto que costuma passar batido: a criança com enxaqueca tem exame neurológico normal entre as crises. Alteração persistente no exame não combina com cefaleia primária.

A pergunta mais útil que um responsável pode responder é sobre o horário e o gatilho. Dor de cabeça que aparece no fim da tarde, em dia de sono curto ou depois de horas de tela, tem um perfil bem diferente daquela que acorda a criança de madrugada ou que a faz vomitar ao acordar. A segunda situação precisa de avaliação mais rápida.

Os gatilhos mais comuns na infância

  • Sono insuficiente ou horário irregular de dormir, que é de longe o gatilho mais frequente
  • Pular refeições, especialmente o café da manhã
  • Hidratação inadequada, agravada por calor e atividade física
  • Tempo prolongado de tela, com pouca pausa e postura ruim
  • Estresse escolar, provas e conflitos com colegas
  • Excesso de bebidas com cafeína, incluindo refrigerantes e energéticos
  • Nas meninas adolescentes, a relação com o ciclo menstrual, tema abordado em outro artigo deste blog

Vale um comentário sobre um mito persistente: problema de visão é uma causa muito menos frequente de dor de cabeça do que se imagina. Vale checar a acuidade visual, mas trocar de óculos raramente resolve uma enxaqueca, e atribuir tudo à vista costuma atrasar o diagnóstico correto.

Como é feito o diagnóstico

O diagnóstico é clínico, feito com história detalhada e exame neurológico completo, incluindo avaliação do fundo de olho, medida da pressão arterial e do perímetro cefálico nas crianças menores.

O instrumento mais útil é o diário de dor de cabeça, com registro simples de data, horário, duração, intensidade, o que a criança estava fazendo antes, quanto dormiu, o que comeu e o que foi usado para a dor. Além de organizar o diagnóstico, esse registro mostra padrões que a família não tinha percebido, e é o que permite avaliar depois se o tratamento funcionou.

Exames de imagem não são necessários na maioria dos casos de cefaleia primária com exame neurológico normal. Eles entram quando existem sinais de alarme, e a preferência é pela ressonância magnética, para evitar radiação, conforme discutido em outro artigo deste blog sobre quando o exame é realmente necessário. Em crianças pequenas, a ressonância pode exigir sedação, o que é mais um motivo para indicá-la com critério.

Como é o tratamento

O tratamento da crise se apoia em três pontos: agir cedo, usar dose adequada para o peso e permitir o sono. As medicações mais usadas são ibuprofeno e paracetamol, em doses calculadas pelo peso da criança, e não por medida caseira. Ambiente escuro, silencioso e uma soneca resolvem muitas crises em crianças.

O cuidado mais importante aqui é o mesmo dos adultos: analgésico usado com frequência excessiva pode transformar uma dor de cabeça ocasional em dor de cabeça quase diária, quadro chamado de cefaleia por uso excessivo de analgésicos, discutido em outro artigo deste blog. Em crianças esse risco é real e frequentemente subestimado, e por isso vale contar os dias de uso por mês.

O tratamento preventivo é considerado quando as crises são frequentes, intensas ou levam a faltas escolares recorrentes. As medidas não medicamentosas vêm primeiro e têm efeito grande nessa faixa etária: horário regular de sono, café da manhã, hidratação, atividade física, limite de tela e manejo do estresse escolar. Quando é necessário medicamento preventivo, a escolha depende da idade, do peso, das outras condições associadas e do padrão das crises, e a decisão é individualizada com o neurologista.

Quando procurar um neurologista?

Procure avaliação quando a dor de cabeça é recorrente, quando ela faz a criança faltar à escola, quando muda de padrão, quando não melhora com as medidas simples, e imediatamente diante de qualquer sinal de alarme, principalmente dor que acorda a criança, vômitos matinais, dor progressiva ou alteração no exame neurológico. Também vale a consulta quando o uso de analgésico se tornou frequente.


Conclusão

Dor de cabeça na infância é comum e, na maioria das vezes, é uma cefaleia primária sem doença estrutural, sendo a enxaqueca infantil frequentemente confundida com outra coisa porque dura menos, atinge os dois lados e vem com náusea, vômito e palidez, melhorando muito com o sono. O que define a conduta são os sinais de alarme: dor que acorda a criança, vômitos matinais, dor progressiva, piora com esforço e alteração no exame neurológico. Fora desse cenário, o caminho passa por diário de dor, ajustes de sono, alimentação, hidratação e tela, tratamento adequado da crise e atenção ao número de dias de analgésico por mês.


Escrito e revisado por Dr. Brendow Martin Neurologista — CRM/CE 22318 · RQE 18935 Última revisão: 31/08/2026

Fontes consultadas: