Entre todas as dores de cabeça, existe uma que se destaca pela intensidade e por um comportamento quase relojeiro: as crises começam no mesmo horário, muitas vezes acordando a pessoa de madrugada, duram de quinze minutos a três horas, e podem se repetir várias vezes ao dia por semanas. É a cefaleia em salvas, também chamada de cluster headache.
A dor é sempre de um lado só, concentrada ao redor ou atrás do olho, descrita como facada, queimação ou perfuração. Junto dela aparecem sinais que não são da enxaqueca: o olho do lado da dor lacrimeja e fica vermelho, a pálpebra cai, a narina entope ou escorre, e a metade do rosto pode suar. Outro contraste importante: quem tem enxaqueca procura o silêncio e a cama, quem tem cefaleia em salvas não consegue ficar parado, anda pela casa e se balança.
Neste artigo, você vai entender:
- Como diferenciar a cefaleia em salvas da enxaqueca
- Por que as crises têm horário fixo
- O que funciona para cortar a crise
- Quais são as opções de tratamento preventivo
- Por que analgésico comum não resolve
Como diferenciar da enxaqueca
As duas são dores de cabeça primárias intensas, mas o padrão é bastante distinto:
- Duração da crise: na cefaleia em salvas, de quinze minutos a três horas. Na enxaqueca, de quatro horas a três dias.
- Frequência no dia: na cefaleia em salvas, de uma a oito crises no mesmo dia. Na enxaqueca, em geral uma crise por episódio.
- Localização: sempre do mesmo lado, ao redor do olho, na cefaleia em salvas. Na enxaqueca costuma ser de um lado, mas pode trocar de lado entre as crises.
- Sinais no olho e no nariz: lacrimejamento, olho vermelho, pálpebra caída, nariz entupido ou escorrendo do lado da dor são típicos da cefaleia em salvas.
- Comportamento durante a dor: agitação e incapacidade de ficar parado na cefaleia em salvas. Busca por repouso, silêncio e escuro na enxaqueca.
- Ritmo: períodos de semanas com crises diárias, seguidos de meses sem nenhuma dor, é característico da cefaleia em salvas.
Esse último item explica o nome. As crises vêm agrupadas em salvas, que duram de semanas a alguns meses, e depois vem um período de remissão. Muitos pacientes percebem que suas salvas se repetem nas mesmas épocas do ano.
Por que as crises têm horário fixo
O ritmo tão marcado tem base biológica. A cefaleia em salvas envolve o hipotálamo, região do cérebro que abriga o relógio biológico e controla os ciclos de sono e vigília. Essa participação explica os dois níveis de regularidade do quadro: o horário fixo das crises dentro do dia, muitas vezes uma ou duas horas depois de a pessoa adormecer, e a repetição das salvas em determinadas épocas do ano.
Também explica outro achado clínico frequente: as crises tendem a começar durante o sono, e o álcool costuma dispará-las de forma quase imediata durante o período de salva, embora não tenha esse efeito nos períodos de remissão.
Se a sua dor de cabeça é sempre do mesmo lado, dura menos de três horas, acorda você de madrugada no mesmo horário e faz o olho lacrimejar, ela provavelmente não é enxaqueca e não vai responder ao que se usa para enxaqueca. Essa distinção muda completamente o tratamento.
O que funciona para cortar a crise
Como a crise é curta e extremamente intensa, o tratamento precisa agir rápido. Comprimidos são pouco úteis, porque a absorção é lenta demais para uma dor que atinge o pico em minutos. As duas opções com melhor evidência são:
- Oxigênio em alto fluxo, inalado com máscara adequada e sem reinalação, iniciado no começo da crise. É eficaz, seguro e pode ser usado em casa, com prescrição e orientação médica.
- Sumatriptano por via subcutânea, que tem início de ação rápido. Existem também apresentações nasais de triptanos. É importante lembrar que triptanos têm contraindicações cardiovasculares e limite de uso diário.
O uso frequente de medicações de resgate, aqui como em outras cefaleias, pode levar à cefaleia por uso excessivo de analgésicos, assunto de outro artigo deste blog. Por isso o tratamento preventivo entra cedo.
Quais são as opções de tratamento preventivo
O tratamento preventivo tem duas camadas.
A camada de transição serve para cobrir o intervalo até o preventivo de manutenção começar a agir, e inclui corticoide por período curto e o bloqueio do nervo occipital maior, procedimento discutido em outro artigo deste blog.
A camada de manutenção tem como primeira escolha o verapamil, um bloqueador de canal de cálcio, em doses que costumam ser mais altas do que as usadas em cardiologia, com necessidade de acompanhamento eletrocardiográfico. Outras opções incluem o topiramato, o lítio e, em casos selecionados, medicações anti-CGRP, sendo o galcanezumabe o anticorpo monoclonal com estudos específicos para a forma episódica. Vale registrar que a disponibilidade dessas medicações no Brasil mudou nos últimos anos, tema abordado em outro artigo deste blog sobre a saída do Emgality do mercado brasileiro. Para pacientes com quadros crônicos e resistentes, existem procedimentos de neuromodulação avaliados em centros especializados.
Por que analgésico comum não resolve
Dipirona, paracetamol e anti-inflamatórios não têm velocidade nem potência para uma dor que sobe ao máximo em poucos minutos e passa em uma hora. Na prática, a crise costuma acabar sozinha antes de o comprimido agir, o que cria a falsa impressão de que o analgésico funcionou.
Existe ainda um risco associado: pela intensidade extrema da dor, muitos pacientes acabam recebendo opioides em pronto atendimento. Opioides não são eficazes na cefaleia em salvas, aumentam o risco de rebote e de dependência, e são um dos motivos pelos quais o diagnóstico correto importa tanto. O tema é discutido em outro artigo deste blog sobre opioides na dor de cabeça.
Quando procurar um neurologista?
Procure avaliação neurológica se você tem crises de dor de cabeça sempre do mesmo lado, ao redor do olho, com lacrimejamento ou pálpebra caída, com duração inferior a três horas e repetição diária por semanas. Também procure atendimento imediato se a dor de cabeça for a pior da sua vida e tiver começado de forma súbita e explosiva, um cenário diferente e discutido em outro artigo deste blog, porque nesse caso a prioridade é afastar causas graves e imediatas.
Conclusão
A cefaleia em salvas é uma das dores mais intensas descritas na medicina, e tem um padrão que a torna reconhecível: sempre do mesmo lado, ao redor do olho, com sinais como lacrimejamento e pálpebra caída, crises de quinze minutos a três horas, várias vezes ao dia, com horário fixo e agrupadas em períodos de semanas. O tratamento não é o mesmo da enxaqueca: a crise se corta com oxigênio em alto fluxo ou sumatriptano injetável, e a prevenção tem o verapamil como primeira escolha. Diagnosticar corretamente é o que separa anos de sofrimento de um tratamento que funciona.
Escrito e revisado por Dr. Brendow Martin Neurologista — CRM/CE 22318 · RQE 18935 Última revisão: 15/08/2026
Fontes consultadas:
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