Tontura é um dos sintomas mais comuns nos consultórios de neurologia, e também um dos mais inespecíficos. O termo é usado por pacientes para descrever sensações bem diferentes entre si: uma sensação de giro (vertigem), a impressão de que vai desmaiar (pré-síncope) ou uma instabilidade ao andar (desequilíbrio). Cada uma dessas sensações aponta para causas diferentes.

Como neurologista, o primeiro passo da consulta é justamente esse: entender que tipo de tontura o paciente sente, com que ela se relaciona e há quanto tempo ocorre. Essa descrição, mais do que qualquer exame isolado, costuma indicar o diagnóstico.

Neste artigo, você vai entender:

  • Os tipos de tontura e o que cada um costuma significar
  • As causas mais comuns, do ouvido interno ao sistema nervoso
  • Quando a tontura é um sinal de alerta que exige avaliação imediata
  • Como se preparar para a consulta com o neurologista

Os três tipos de tontura

  • Vertigem: sensação de giro, do ambiente ou do próprio corpo. Costuma ter origem no ouvido interno (labirinto) ou nas conexões desse sistema com o tronco cerebral e o cerebelo.
  • Pré-síncope: sensação de “cabeça leve”, escurecimento da visão, como se fosse desmaiar. Geralmente está ligada à queda de pressão arterial ou a alterações do ritmo cardíaco.
  • Desequilíbrio (instabilidade): dificuldade para caminhar em linha reta, sensação de estar “bêbado” sem estar. Pode envolver o cerebelo, os nervos periféricos das pernas ou a visão.

Causas mais comuns

  • Vertigem Postural Paroxística Benigna (VPPB): a causa mais frequente de vertigem. Pequenos cristais de cálcio do ouvido interno se deslocam de posição e provocam crises breves e intensas de giro ao mover a cabeça: virar na cama, olhar para cima, abaixar-se. Tem tratamento simples e eficaz, feito em consultório, com manobras de reposicionamento.
  • Labirintite (neurite vestibular): inflamação do ouvido interno, geralmente após um quadro viral, causando vertigem intensa e contínua por dias.
  • Enxaqueca vestibular: a enxaqueca não causa apenas dor de cabeça: pode causar episódios de tontura ou vertigem, com ou sem cefaleia associada.
  • Hipotensão postural: queda de pressão ao levantar, comum em quadros de desidratação, uso de certos medicamentos ou em pessoas mais idosas.
  • Efeito de medicamentos: anti-hipertensivos, sedativos e alguns antidepressivos estão entre os principais causadores.
  • Ansiedade: tontura e sensação de “cabeça vazia” são sintomas físicos comuns de quadros ansiosos e de pânico.
  • AVC (menos comum, porém urgente): tontura originada no tronco cerebral ou no cerebelo pode imitar uma tontura de origem no ouvido. Por isso, tontura súbita e intensa sempre merece atenção, principalmente quando acompanhada de outros sintomas (veja os sinais de alerta abaixo).

Nem toda tontura é do ouvido, e nem toda tontura é do cérebro. A forma como o sintoma se comporta (o gatilho, a duração, os sintomas associados) é o que direciona corretamente a investigação.

Sinais de alerta: procure emergência imediatamente

Busque atendimento de urgência (SAMU 192) se a tontura vier acompanhada de:

  • Dor de cabeça súbita e muito intensa, diferente de qualquer outra já sentida
  • Visão dupla, fala enrolada ou boca torta
  • Fraqueza ou dormência de um lado do corpo
  • Dificuldade para andar ou perda de equilíbrio muito súbita e intensa
  • Dor no peito, palpitações ou desmaio

Essa combinação de sintomas pode indicar um AVC ou outra emergência neurológica. Nesses casos, o certo é acionar o serviço de emergência, e não esperar por uma consulta agendada.

Quando procurar um neurologista?

Vale agendar uma avaliação quando a tontura é recorrente, atrapalha as atividades do dia a dia, ou quando não há um gatilho claro (como levantar rápido). Leve um diário de sintomas: quando ocorre, quanto tempo dura, o que você estava fazendo e quais sintomas vêm junto. Esse detalhe costuma apontar diretamente para o diagnóstico.


Conclusão

Tontura é um sintoma comum, mas não deve ser tratado de forma genérica: as causas vão de um problema simples do ouvido interno a quadros que exigem avaliação neurológica detalhada. Descrever bem o sintoma é o primeiro passo para o diagnóstico correto.

Na maior parte das vezes, a tontura tem causa benigna e tratamento eficaz. O papel da avaliação médica é justamente diferenciar esses casos dos poucos que representam urgência, garantindo tratamento certo e tranquilidade para o paciente.


Escrito e revisado por Dr. Brendow Martin Neurologista — CRM/CE 22318 · RQE 18935 Última revisão: 03/07/2026