Resposta rápida: sim, uma criança pode ter epilepsia sem nunca ter convulsionado com abalos no corpo. A crise de ausência é um tipo de epilepsia em que a criança simplesmente “desliga” por alguns segundos, com o olhar parado, e volta ao normal como se nada tivesse acontecido. É um dos tipos de crise mais fáceis de passar despercebido, muitas vezes confundido com desatenção ou “viagem”.

Diferente da imagem clássica de convulsão, com queda e abalos musculares, a crise de ausência é silenciosa e discreta. A criança para o que está fazendo, olha fixamente para um ponto, pode piscar repetidamente, e depois de alguns segundos retoma a atividade exatamente de onde parou, sem se lembrar do episódio.

Neste artigo, você vai entender:

  • Como é a crise de ausência e por que ela passa despercebida
  • Por que costuma ser confundida com desatenção ou TDAH
  • Os sinais que ajudam a diferenciar de um momento de distração comum
  • Como é feito o diagnóstico

Como é a crise de ausência

A crise de ausência típica dura de 5 a 15 segundos e tem características bem específicas:

  • Início e fim súbitos, sem aviso prévio
  • Olhar fixo, parado, “vidrado”
  • Interrupção completa da atividade que a criança estava fazendo
  • Possível piscar repetitivo ou pequenos movimentos da boca
  • Retorno imediato à atividade anterior, sem confusão mental depois
  • A criança não se lembra do episódio

Esses episódios podem se repetir várias vezes ao longo do dia, às vezes dezenas de vezes, o que os torna mais fáceis de notar quando alguém presta atenção ao padrão.

Por que é confundida com desatenção ou TDAH

Como a criança apenas “para” por alguns segundos, sem qualquer movimento chamativo, é comum que pais e professores interpretem os episódios como desatenção, sonhar acordado ou um sinal de TDAH. A diferença chave está no início e no fim súbitos: a criança desatenta costuma responder, ainda que com atraso, a um chamado ou toque, enquanto durante a crise de ausência ela realmente não responde a nada, e “volta” de uma vez, sem transição.

Um teste simples, embora não substitua avaliação médica, costuma chamar atenção dos pais: tentar interromper o episódio chamando o nome da criança ou tocando nela. Na crise de ausência, não há resposta até o episódio terminar sozinho.

Sinais que ajudam a diferenciar de distração comum

  • A criança para no meio de uma frase ou de um movimento, e retoma exatamente do mesmo ponto
  • Os episódios são muito parecidos entre si, quase idênticos a cada vez
  • Podem ocorrer várias vezes por dia, inclusive durante atividades que a criança gosta
  • Professores costumam notar quedas de rendimento escolar sem causa aparente, já que a criança perde pequenos trechos de explicação repetidamente

Como é feito o diagnóstico

O diagnóstico é feito por um neurologista, com base na descrição detalhada dos episódios e confirmado pelo eletroencefalograma, exame que registra a atividade elétrica cerebral e costuma mostrar um padrão bem característico durante as crises de ausência, muitas vezes provocado propositalmente durante o exame por meio de hiperventilação.

A boa notícia é que esse tipo de epilepsia costuma responder muito bem ao tratamento medicamentoso, e uma parte significativa das crianças supera a condição ao longo da adolescência.


Conclusão

Nem toda epilepsia parece com o que se vê em filmes. A crise de ausência é discreta, silenciosa, e por isso é frequentemente confundida com desatenção, o que pode atrasar o diagnóstico e prejudicar o desempenho escolar da criança. Diante de episódios repetidos de “desligar” com olhar parado, vale procurar avaliação neurológica.


Escrito e revisado por Dr. Brendow Martin Neurologista — CRM/CE 22318 · RQE 18935 Última revisão: 10/07/2026