Tramal® é o nome comercial mais conhecido do tramadol, um analgésico da classe dos opioides. Ele é usado para alguns tipos de dor moderada a intensa, especialmente em contextos pós-operatórios, traumáticos ou de dor oncológica. Mas quando o assunto é enxaqueca, minha posição é direta: Tramal não deve ser usado como tratamento de enxaqueca.
E a regra não vale só para o Tramal. Vale para codeína, morfina, oxicodona, fentanil, metadona, tapentadol e qualquer outro opioide.
Enxaqueca não é apenas “dor forte”. É uma doença neurológica com mecanismos próprios, envolvendo o sistema trigeminovascular, CGRP, sensibilização à luz, náuseas, alteração sensorial e predisposição genética. Tratar enxaqueca com opioide é tratar a intensidade da dor ignorando a doença que está por trás dela.
Isso costuma dar errado.
Neste artigo, você vai entender:
- Por que o Tramal parece ajudar no começo
- Por que opioides pioram o manejo da enxaqueca no médio prazo
- O que é cefaleia por uso excessivo de medicação
- Quais riscos específicos o tramadol traz
- O que deve ser usado no lugar
- O que fazer se você já usa Tramal para crises de enxaqueca
A resposta curta: sim, Tramal faz mal para enxaqueca
Não porque uma única dose necessariamente vá causar um dano permanente. O problema é o caminho que essa escolha abre.
O paciente tem uma crise forte, toma Tramal, sente algum alívio ou fica sedado o suficiente para dormir. Na próxima crise, repete. Depois aumenta a dose, associa com anti-inflamatório, toma mais cedo, toma mais vezes, guarda em casa “para emergência”. Quando percebe, está usando opioide várias vezes por mês e as crises estão mais frequentes.
Esse é o ciclo perigoso.
O Tramal pode até mascarar a dor por algumas horas. Mas ele não trata bem a crise de enxaqueca, não corrige a estratégia preventiva, não reduz o risco de cronificação e ainda aumenta a chance de dependência, efeitos adversos e cefaleia por uso excessivo de medicação.
O fato de uma dor ser muito forte não transforma opioide no remédio certo.
Por que opioides são ruins para enxaqueca?
1. Eles não são específicos para enxaqueca
Medicamentos específicos para enxaqueca atuam em mecanismos envolvidos na crise. Triptanos agem em receptores serotoninérgicos relacionados ao sistema trigeminovascular. Gepantes bloqueiam a via do CGRP. Antieméticos ajudam náusea, vômitos e absorção de outros medicamentos. Anti-inflamatórios reduzem componentes inflamatórios da crise.
Opioides atuam principalmente em receptores de dor no sistema nervoso. Eles podem reduzir a percepção dolorosa, mas não são uma boa ferramenta para interromper a fisiopatologia da enxaqueca.
Na prática, isso cria uma falsa sensação de tratamento: a dor pode apagar por algumas horas, mas a doença continua mal manejada.
2. Eles aumentam o risco de cefaleia por uso excessivo de medicação
A cefaleia por uso excessivo de medicação, também chamada popularmente de “dor de cabeça por rebote” ou “cefaleia por abuso de analgésicos”, acontece quando o uso frequente de medicações de crise começa a manter o cérebro em um estado de dor mais persistente.
Pela classificação internacional de cefaleias, o uso regular de opioides por 10 ou mais dias por mês por mais de 3 meses já entra em critério de risco para cefaleia por uso excessivo de opioides.
Isso é muito pouco. Dez dias por mês significa algo como dois a três dias por semana.
Para um paciente com enxaqueca frequente, esse limite é alcançado rapidamente. E quando opioides entram no ciclo, a retirada costuma ser mais difícil do que com analgésicos simples.
3. Eles favorecem cronificação
Enxaqueca episódica é aquela que aparece em alguns dias do mês. Enxaqueca crônica ocorre quando há 15 ou mais dias de dor de cabeça por mês, com pelo menos oito dias com características de enxaqueca.
Um dos caminhos mais comuns para a cronificação é o uso repetido de medicações de resgate, especialmente quando não existe uma estratégia preventiva adequada. Opioides são particularmente problemáticos nesse cenário porque reforçam o ciclo de alívio curto, retorno da dor, nova dose e maior sensibilidade do sistema nervoso.
Com o tempo, o paciente deixa de ter crises isoladas e passa a viver com dor quase contínua.
4. Eles atrapalham o tratamento correto
Quando o paciente usa Tramal para “apagar” crises, é comum adiar o que realmente precisava ser feito:
- Confirmar se o diagnóstico é enxaqueca ou outro tipo de cefaleia
- Investigar sinais de alarme
- Montar uma estratégia adequada para a crise
- Iniciar profilaxia quando há crises frequentes
- Tratar insônia, ansiedade, depressão, bruxismo ou apneia do sono
- Reduzir uso excessivo de analgésicos
O opioide vira uma saída rápida que impede o plano certo de nascer.
“Mas foi o único remédio que resolveu minha dor”
Essa frase aparece muito no consultório. E ela merece respeito, não bronca.
Quando alguém diz que Tramal foi o único remédio que funcionou, geralmente isso significa uma de três coisas:
- A crise nunca foi tratada com medicação específica e no momento certo
- O paciente já está em cefaleia por uso excessivo de medicação
- A enxaqueca está tão frequente que precisa de prevenção, não de mais resgate
Também pode significar que há náusea intensa, vômitos ou gastroparesia da crise, fazendo com que comprimidos comuns sejam mal absorvidos. Nesses casos, o problema não é falta de “remédio forte”; é falta de estratégia. Às vezes é preciso usar antiemético, via nasal, via subcutânea, medicação no início da crise ou tratamento preventivo.
O objetivo não é deixar o paciente sofrendo. É parar de usar uma ferramenta ruim para uma doença que tem opções melhores.
Riscos específicos do Tramal
O tramadol costuma ser vendido mentalmente como um opioide “mais fraco” ou “mais seguro”. Essa impressão é perigosa.
Além da ação opioide, o tramadol também interfere na recaptação de serotonina e noradrenalina. Isso cria riscos próprios, especialmente em pacientes que usam antidepressivos, remédios para dor crônica, alguns medicamentos psiquiátricos ou outras substâncias que mexem com serotonina.
Entre os riscos relevantes estão:
- Náuseas, vômitos, tontura e sonolência
- Queda de pressão, confusão e risco de quedas
- Constipação intestinal
- Retenção urinária
- Dependência física e psíquica
- Abstinência ao suspender após uso repetido
- Convulsões, inclusive em doses terapêuticas em pacientes suscetíveis
- Síndrome serotoninérgica, especialmente em combinações medicamentosas de risco
- Depressão respiratória, principalmente quando associado a álcool, benzodiazepínicos ou outros sedativos
Em outras palavras: o Tramal não é um “analgésico comum mais forte”. É um opioide com complexidade farmacológica própria.
Opioide na emergência: por que isso ainda acontece?
Muitos pacientes recebem tramadol ou outros opioides em pronto atendimento. Isso acontece por vários motivos: dor intensa, pressão por alívio rápido, falta de histórico detalhado, pouco tempo para avaliar frequência das crises e, às vezes, desconhecimento das diretrizes específicas de cefaleia.
Mas a prática comum não é necessariamente a melhor prática.
Diretrizes internacionais são claras em desencorajar opioides no tratamento agudo da enxaqueca. A diretriz do NICE, por exemplo, recomenda não oferecer opioides para tratamento agudo da enxaqueca. A American Headache Society também alerta para o uso excessivo de opioides e destaca que eles não são tão eficazes quanto medicações específicas, como triptanos, para muitos pacientes.
Se você foi ao pronto atendimento e recebeu Tramal uma vez, isso não significa que você “estragou” seu tratamento. Mas se toda crise forte termina em opioide, o plano está errado.
O que usar no lugar?
O tratamento da crise de enxaqueca precisa ser escolhido de acordo com intensidade, frequência, contraindicações, náusea, velocidade de instalação da dor e histórico do paciente.
Crises leves a moderadas
Podem responder a:
- Dipirona
- Paracetamol
- Ibuprofeno
- Naproxeno
- Diclofenaco
- Ácido acetilsalicílico, quando não houver contraindicação
Mesmo essas opções precisam de limite. Uso frequente de qualquer medicação de crise pode contribuir para cefaleia por uso excessivo.
Crises moderadas a fortes
Geralmente exigem tratamento específico:
- Sumatriptano
- Naratriptano
- Rizatriptano
- Zolmitriptano
- Eletriptano
Triptanos têm contraindicações, especialmente em algumas doenças cardiovasculares, mas quando bem indicados são muito mais coerentes para enxaqueca do que opioides.
Náusea, vômitos ou crise que não absorve comprimido
Nesses casos, pode ser necessário associar:
- Metoclopramida
- Domperidona
- Ondansetrona, em situações selecionadas
- Estratégias não orais, dependendo do caso
Novas opções
Com a chegada dos gepantes ao Brasil, como o rimegepanto, alguns pacientes poderão ter novas alternativas para tratamento de crise, especialmente quando triptanos falham, são mal tolerados ou são contraindicados.
Isso não significa automedicação. Significa que o repertório terapêutico está aumentando.
Quando a crise é frequente, o problema não se resolve com mais remédio de resgate
Se você precisa tratar crises muitas vezes ao mês, a pergunta principal deixa de ser “qual remédio tomo na hora da dor?” e passa a ser:
por que a enxaqueca está acontecendo tanto?
Pode haver indicação de tratamento preventivo quando há:
- Quatro ou mais dias de enxaqueca por mês
- Crises muito incapacitantes
- Uso frequente de remédios de resgate
- Falha ou contraindicação aos tratamentos de crise
- Risco de cronificação
- Idas repetidas ao pronto atendimento
As opções preventivas incluem medicamentos orais, toxina botulínica para enxaqueca crônica, anticorpos monoclonais anti-CGRP, bloqueios em casos selecionados, ajuste de sono, manejo de comorbidades e mudanças comportamentais com evidência.
Mais Tramal não é prevenção. É sinal de que a prevenção está faltando.
O que fazer se você já usa Tramal para enxaqueca?
Primeiro: não entre em pânico. Segundo: não transforme este texto em uma retirada abrupta sem orientação se você usa opioide com frequência.
Se o uso é raro e pontual, converse com seu médico para substituir por uma estratégia mais adequada. Se o uso já é frequente, especialmente semanal ou quase semanal, o ideal é fazer uma transição planejada.
Leve para a consulta:
- Quantos dias de dor você tem por mês
- Quantos dias usa Tramal ou outro opioide
- Quantos dias usa analgésicos, anti-inflamatórios ou triptanos
- Dose usada em cada crise
- Se há náusea, vômito, aura, tontura ou sintomas neurológicos
- Quais preventivos já tentou
- Se usa antidepressivos, benzodiazepínicos, álcool ou outros sedativos
Em alguns casos, será necessário tratar cefaleia por uso excessivo de medicação, iniciar prevenção e organizar uma ponte terapêutica para atravessar o período de retirada com menos sofrimento.
O caminho certo não é julgar o paciente. É tirar o paciente de um ciclo que faz a doença piorar.
Minha orientação prática
Se você tem enxaqueca, não use Tramal como plano de tratamento.
Se você recebeu Tramal no pronto atendimento, não transforme isso em rotina.
Se você tem Tramal guardado para “crise forte”, converse com um neurologista para montar um plano melhor.
Se você já depende dele para funcionar, procure ajuda antes de tentar parar sozinho.
E se alguém disser que “enxaqueca forte precisa de remédio forte”, desconfie. Enxaqueca forte precisa de remédio certo, usado no momento certo, com diagnóstico correto e prevenção quando indicada.
Em resumo
Tramal e outros opioides não são bons tratamentos para enxaqueca. Podem dar alívio passageiro, mas aumentam o risco de uso repetido, dependência, efeitos adversos, cefaleia por uso excessivo de medicação e cronificação da dor.
O tratamento moderno da enxaqueca deve priorizar medicações específicas, controle do uso de resgates, prevenção quando indicada e investigação de fatores que mantêm a dor frequente.
Minha posição é clara: opioide não deve ser usado como tratamento de enxaqueca. Quando a dor está exigindo opioide, geralmente o que está faltando não é força no analgésico. É estratégia.
Se você usa Tramal ou outro opioide para crises de enxaqueca, agende uma avaliação neurológica para reorganizar seu tratamento com segurança.
Fontes consultadas
- NICE - Headaches in over 12s: diagnosis and management
- American Headache Society - Opioids and Migraine
- International Classification of Headache Disorders - Opioid-overuse headache
- American Academy of Neurology - Migraine Relief Shared Decision-making Tool
- DailyMed - Tramadol Hydrochloride Prescribing Information
Escrito e revisado por Dr. Brendow Mártin
Neurologista - CRM/CE 22318 · RQE 18935
Última revisão: 02/06/2026
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