A enxaqueca acaba de ganhar uma novidade importante no Brasil. Em 25 de maio de 2026, a Anvisa aprovou o registro do Nurtec® ODT, medicamento cujo princípio ativo é o hemissulfato de rimegepant sesqui-hidratado. Na prática, isso marca a chegada de uma classe que muitos pacientes já vinham ouvindo em notícias, redes sociais ou consultas especializadas: os gepantes.
O rimegepant é uma medicação oral voltada especificamente para a enxaqueca. Ele pode ser usado tanto no tratamento da crise quanto na prevenção da enxaqueca episódica em adultos, de acordo com a indicação divulgada pela Anvisa.
Mas é importante começar com uma expectativa realista: a aprovação regulatória é uma ótima notícia, mas não significa que todo paciente já encontrará o medicamento imediatamente em qualquer farmácia, nem que ele estará automaticamente coberto por planos de saúde ou disponível no SUS. Registro sanitário é uma etapa essencial. Acesso, preço, estoque e cobertura ainda dependem de etapas comerciais e administrativas.
Neste artigo, você vai entender:
- O que é o rimegepant
- Como ele age na enxaqueca
- Para quais pacientes pode fazer sentido
- O que muda em relação aos triptanos e aos anticorpos anti-CGRP
- Quais cuidados, efeitos adversos e interações precisam ser lembrados
- O que ainda não sabemos sobre acesso no Brasil
O que é o rimegepant?
O rimegepant é um medicamento da classe dos gepantes, um grupo de moléculas que bloqueiam o receptor do CGRP.
O CGRP, sigla para peptídeo relacionado ao gene da calcitonina, é uma molécula muito envolvida na fisiopatologia da enxaqueca. Durante uma crise, ela participa da transmissão da dor, da inflamação neurogênica e da sensibilização do sistema trigeminovascular. Por isso, nos últimos anos, o CGRP se tornou um dos principais alvos dos tratamentos modernos da enxaqueca.
O Nurtec ODT tem apresentação de 75 mg em forma orodispersível, ou seja, foi desenvolvido para dissolver na boca. No Diário Oficial da União, o registro brasileiro aparece nas apresentações com 2, 8 e 16 unidades.
Isso o diferencia de várias opções tradicionais porque ele não é um analgésico comum, não é anti-inflamatório e não é opioide. Também não pertence à classe dos triptanos, embora possa ocupar um espaço parecido no tratamento da crise em alguns pacientes.
Para quem ele foi aprovado no Brasil?
Segundo a Anvisa, o Nurtec ODT foi aprovado para adultos em duas situações:
- Tratamento agudo da enxaqueca com ou sem aura
- Tratamento preventivo da enxaqueca episódica em adultos com pelo menos quatro crises por mês
Essa distinção é importante.
No uso agudo, a ideia é tomar a medicação para tratar uma crise que já começou. No uso preventivo, o objetivo é reduzir a frequência das crises ao longo do mês.
Também é importante diferenciar enxaqueca episódica de enxaqueca crônica. Em geral, chamamos de enxaqueca crônica quando há 15 ou mais dias de dor de cabeça por mês, por mais de três meses, com pelo menos oito dias com características de enxaqueca. A indicação preventiva divulgada pela Anvisa é para enxaqueca episódica, não para substituir automaticamente estratégias usadas na enxaqueca crônica, como toxina botulínica, preventivos orais ou anticorpos monoclonais anti-CGRP.
Na prática clínica, pacientes com muitos dias de dor por mês precisam de avaliação individualizada. Nem toda dor de cabeça frequente é apenas “enxaqueca forte”; muitas vezes existe cronificação, uso excessivo de analgésicos, distúrbio do sono, bruxismo, ansiedade, depressão, apneia do sono ou outra condição alimentando o quadro.
Como o rimegepant age?
O rimegepant bloqueia o receptor do CGRP. Com isso, reduz a ação dessa molécula em vias relacionadas à dor da enxaqueca.
Esse mecanismo é diferente dos triptanos. Os triptanos, como sumatriptano, naratriptano, rizatriptano e zolmitriptano, atuam em receptores serotoninérgicos e podem causar vasoconstrição. Por esse motivo, são evitados ou contraindicados em vários pacientes com doença cardiovascular, histórico de AVC, doença coronariana ou risco vascular importante.
Os gepantes não funcionam por vasoconstrição. Isso é uma diferença relevante e pode abrir uma alternativa para pacientes que não toleram ou não podem usar triptanos. Ainda assim, isso não significa que o rimegepant seja “liberado para todo mundo”. A bula internacional traz alertas sobre hipersensibilidade, possível elevação ou piora da pressão arterial e fenômeno de Raynaud em contexto pós-comercialização. Pacientes com comorbidades precisam de avaliação médica, como sempre.
Ele trata a crise e também previne?
Sim. Esse é um dos pontos mais interessantes do rimegepant: a mesma molécula pode ser usada em dois contextos diferentes.
Uso na crise
No tratamento agudo, o objetivo é reduzir a dor e os sintomas associados, como náusea, fotofobia e fonofobia, quando a crise já começou.
Nos estudos usados para avaliação internacional, uma dose de 75 mg foi superior ao placebo em desfechos como ausência de dor em duas horas, melhora do sintoma mais incômodo e menor necessidade de medicação de resgate. Em um dos estudos de tratamento agudo, 21,2% dos pacientes que usaram rimegepant estavam sem dor após duas horas, contra 10,9% no grupo placebo.
Esse número ajuda a colocar a expectativa no lugar certo. Não é uma medicação milagrosa que elimina todas as crises em todos os pacientes. É uma opção específica, com mecanismo moderno, que pode ser muito útil em pacientes selecionados.
Uso preventivo
Na prevenção da enxaqueca episódica, o esquema internacional aprovado usa 75 mg em dias alternados. Em estudo preventivo, o rimegepant reduziu os dias mensais de enxaqueca mais do que o placebo nas semanas 9 a 12, com diferença média de 0,8 dia por mês em relação ao placebo. A proporção de pacientes com redução de pelo menos 50% dos dias mensais de enxaqueca moderada a grave também foi maior com rimegepant.
Aqui também vale a leitura realista: a média do estudo parece modesta, mas médias escondem respondedores individuais. Alguns pacientes podem ter benefício expressivo; outros, pouco ou nenhum. É por isso que diário de cefaleia continua sendo fundamental para avaliar resposta.
O que muda em relação aos triptanos?
Os triptanos continuam sendo uma opção muito importante para o tratamento agudo da enxaqueca. Eles têm décadas de experiência, bom nível de evidência e, no Brasil, costumam ser mais acessíveis que as terapias mais novas.
O rimegepant não chega para apagar os triptanos do mapa. Ele chega para preencher lacunas.
Pode ser especialmente interessante discutir essa opção quando:
- O paciente não responde bem a triptanos
- Há efeitos adversos limitantes com triptanos
- Existe contraindicação ou cautela importante ao uso de triptanos
- As crises têm náusea importante e a formulação orodispersível facilita o uso
- Há necessidade de uma estratégia que possa atuar tanto na crise quanto na prevenção, dependendo do caso
Por outro lado, se um paciente tem crises raras, responde bem a analgésicos simples ou triptanos, não tem contraindicações e não apresenta uso excessivo de medicação, talvez não haja motivo para trocar uma estratégia que funciona.
Tratamento bom é tratamento que controla a doença, cabe na vida do paciente e tem risco aceitável. Nem sempre o medicamento mais novo é automaticamente o melhor para todos.
E em relação aos anticorpos monoclonais anti-CGRP?
Os anticorpos monoclonais anti-CGRP, como erenumabe, fremanezumabe e galcanezumabe, também atuam na via do CGRP, mas são medicamentos diferentes.
Eles são proteínas grandes, aplicadas por via subcutânea ou intravenosa, com uso preventivo e duração prolongada. O rimegepant é uma molécula pequena, oral, com uso mais flexível.
De forma simplificada:
- Anticorpos anti-CGRP: prevenção, aplicação periódica, efeito prolongado
- Rimegepant: medicação oral, pode ser usado na crise e na prevenção da enxaqueca episódica
Isso não significa que um seja “melhor” que o outro. São ferramentas diferentes. A escolha depende da frequência das crises, histórico de tratamentos prévios, comorbidades, preferência do paciente, custo, disponibilidade e objetivo terapêutico.
Esse ponto ficou ainda mais relevante no Brasil porque, recentemente, pacientes foram surpreendidos com mudanças de disponibilidade de alguns tratamentos modernos para enxaqueca. A chegada de uma opção oral anti-CGRP amplia o repertório, mas não elimina a necessidade de planejamento individual.
Como ele é usado?
A dose não deve ser ajustada por conta própria. A decisão entre uso agudo e uso preventivo precisa ser feita em consulta.
Nas informações internacionais de prescrição, o rimegepant 75 mg aparece com os seguintes esquemas:
- Para crise: 75 mg conforme necessário, respeitando dose máxima diária
- Para prevenção da enxaqueca episódica: 75 mg em dias alternados
Também há um ponto prático: a formulação ODT deve ser retirada do blister com cuidado, com as mãos secas, e colocada sobre ou sob a língua para dissolver. Não é uma medicação para deixar solta fora da embalagem e guardar para depois.
Outro cuidado importante é não transformar o tratamento da crise em uso frequente e desorganizado. Mesmo com medicamentos modernos, pessoas com crises muito frequentes precisam de estratégia preventiva, investigação de fatores de cronificação e acompanhamento. Ficar apenas “apagando incêndio” crise após crise costuma levar a controle ruim.
Efeitos adversos e cuidados
Em estudos clínicos, o rimegepant foi geralmente bem tolerado. Os efeitos adversos mais relatados incluem:
- Náusea
- Dor abdominal ou dispepsia
- Reações de hipersensibilidade, raras, mas potencialmente graves
Após a comercialização em outros países, bulas internacionais também passaram a destacar relatos de:
- Elevação nova da pressão arterial ou piora de hipertensão pré-existente
- Fenômeno de Raynaud novo ou piora de Raynaud já existente
Isso não quer dizer que esses eventos acontecerão com a maioria dos pacientes. Significa que o acompanhamento precisa ser sério, especialmente em pessoas com hipertensão, doenças vasculares, sintomas de Raynaud, múltiplas medicações ou histórico de alergias relevantes.
O uso em gestantes, lactantes, crianças e adolescentes exige ainda mais cautela. As informações internacionais ressaltam que segurança e eficácia pediátrica não estão estabelecidas, e que dados em gestação são limitados. Nesses cenários, a decisão deve ser individualizada e feita com orientação médica.
Interações medicamentosas
O rimegepant é metabolizado principalmente por vias que envolvem o CYP3A4 e também interage com transportadores como P-gp. Traduzindo para a vida real: ele pode interagir com medicações relativamente comuns.
Alguns exemplos de medicamentos que podem exigir cautela ou ajuste de estratégia:
- Antifúngicos como itraconazol e cetoconazol
- Alguns antibióticos macrolídeos, como claritromicina
- Antivirais e esquemas com ritonavir
- Indutores enzimáticos como rifampicina, carbamazepina, fenitoína e erva de São João
- Alguns inibidores de P-gp, como amiodarona, ciclosporina, quinidina e ranolazina
Não é uma lista para o paciente decorar. É uma lista para lembrar que “novo e oral” não significa “simples e sem interação”. Leve sempre sua lista de medicamentos, suplementos e fitoterápicos para a consulta.
Quem pode se beneficiar?
O rimegepant pode entrar na conversa em diferentes perfis de pacientes.
Pacientes com crises incapacitantes
Pessoas que têm crises moderadas a fortes, com náusea, fotofobia, fonofobia e perda de funcionalidade, podem se beneficiar de tratamentos específicos para enxaqueca, especialmente quando analgésicos comuns são insuficientes.
Pacientes que não se adaptaram aos triptanos
Alguns pacientes têm aperto no peito, sonolência, mal-estar, tontura ou outros efeitos desagradáveis com triptanos. Outros simplesmente não respondem bem. Nesses casos, um gepante pode ser uma alternativa a discutir.
Pacientes com contraindicação a triptanos
Como os gepantes não atuam por vasoconstrição, podem ser considerados em cenários nos quais triptanos são problemáticos. Mas isso não dispensa avaliação cardiovascular e clínica. A decisão precisa ser individual.
Pacientes com enxaqueca episódica frequente
Adultos com pelo menos quatro crises por mês, especialmente quando há prejuízo funcional, uso frequente de remédios de resgate ou falha de preventivos prévios, podem conversar com o neurologista sobre a possibilidade de prevenção.
O que ainda precisa ficar claro?
A aprovação pela Anvisa é o primeiro grande passo. Agora, os pontos práticos que pacientes e médicos precisarão acompanhar são:
- Quando o medicamento estará amplamente disponível nas farmácias
- Qual será o preço no Brasil
- Como ficará a cobertura pelos planos de saúde
- Se haverá programas de suporte ao paciente
- Se em algum momento haverá avaliação para incorporação no SUS
- Como será a experiência real dos pacientes brasileiros em termos de resposta, acesso e continuidade
Por isso, vale evitar duas reações extremas: achar que nada mudou ou achar que a enxaqueca agora tem uma solução simples. Mudou bastante, sim. Mas enxaqueca continua sendo uma doença neurológica complexa, e o melhor tratamento ainda depende de diagnóstico correto, diário de cefaleia, revisão de gatilhos, sono, comorbidades e escolha cuidadosa das medicações.
O que fazer se você tem enxaqueca e quer saber se o rimegepant serve para você?
Antes de pedir uma receita, organize as informações que realmente guiam a decisão:
- Quantos dias de dor de cabeça você tem por mês
- Quantos dias têm características de enxaqueca
- Quantas vezes por mês usa analgésico, anti-inflamatório, triptano ou medicação de urgência
- Quais tratamentos já tentou e por quanto tempo
- Quais efeitos adversos teve
- Se há hipertensão, doença cardíaca, AVC prévio, Raynaud, gestação, amamentação ou doença hepática/renal importante
- Se usa medicações contínuas, suplementos ou fitoterápicos
Com esses dados, a conversa fica muito mais objetiva. O rimegepant pode ser uma excelente novidade para alguns pacientes, mas ele precisa entrar dentro de uma estratégia, não como tentativa isolada.
Em resumo
O rimegepant (Nurtec ODT) representa uma novidade relevante para o tratamento da enxaqueca no Brasil. É uma medicação oral da classe dos gepantes, atua bloqueando o receptor do CGRP e foi aprovada pela Anvisa para tratamento agudo da enxaqueca com ou sem aura e para prevenção da enxaqueca episódica em adultos com pelo menos quatro crises por mês.
Ele pode ser útil para pacientes que não respondem bem aos tratamentos tradicionais, que têm contraindicações ou intolerância a triptanos, ou que precisam discutir uma estratégia moderna para crises frequentes. Mas não substitui avaliação médica, não resolve todas as formas de cefaleia e ainda depende de disponibilidade, preço e acesso no Brasil.
Se você tem crises frequentes ou incapacitantes, o passo mais importante continua sendo o mesmo: fazer um diagnóstico correto e montar um plano de tratamento individualizado.
Se você quer entender se o rimegepant faz sentido no seu caso, agende uma avaliação neurológica para revisar seu histórico, frequência das crises e opções de tratamento com segurança.
Fontes consultadas
- Anvisa - Anvisa autoriza novo medicamento para enxaqueca
- Diário Oficial da União - Resolução-RE nº 2.105, de 22 de maio de 2026
- Pfizer Medical Information - NURTEC ODT Prescribing Information
Escrito e revisado por Dr. Brendow Mártin
Neurologista - CRM/CE 22318 · RQE 18935
Última revisão: 31/05/2026
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