O tratamento da epilepsia mudou muito nas últimas décadas. Hoje, temos várias medicações capazes de controlar crises, reduzir risco de acidentes, melhorar qualidade de vida e permitir que muitas pessoas vivam com autonomia.

Mas existe um ponto essencial: não existe uma medicação “melhor para epilepsia” em todos os casos.

A escolha depende do tipo de crise, da síndrome epiléptica, da idade, do sexo, da possibilidade de gestação, de outras doenças, de interações medicamentosas, do custo, da disponibilidade e da tolerabilidade individual.

Por isso, o objetivo deste artigo não é ensinar ninguém a escolher remédio sozinho. É ajudar você a entender os principais grupos de medicações, quais são seus usos mais comuns e quais cuidados merecem conversa cuidadosa com o neurologista.

Primeiro: que tipo de crise estamos tratando?

Antes de falar em nomes de remédios, é preciso classificar a epilepsia.

De forma simplificada, as crises podem ser:

  • Focais: começam em uma região específica do cérebro. Podem causar sintomas motores, sensoriais, autonômicos, emocionais ou alteração da consciência.
  • Generalizadas: envolvem redes cerebrais dos dois hemisférios desde o início. Incluem crises tônico-clônicas, ausências, mioclonias, crises tônicas e atônicas.
  • De início desconhecido: quando a história ou os exames ainda não permitem definir claramente a origem.

Essa distinção muda tudo. Algumas medicações funcionam bem para crises focais, mas podem piorar certos tipos de epilepsia generalizada, especialmente crises de ausência ou mioclônicas.

Em epilepsia, o remédio certo começa pelo diagnóstico certo.

Como o neurologista escolhe a medicação?

A decisão costuma considerar:

  • Tipo de crise e síndrome epiléptica
  • Frequência e gravidade das crises
  • Idade do paciente
  • Possibilidade de gestação
  • Doenças associadas, como depressão, enxaqueca, obesidade, doença hepática ou renal
  • Uso de outras medicações
  • Risco de sonolência, tontura, alteração de humor ou impacto cognitivo
  • Facilidade de tomar o remédio corretamente
  • Disponibilidade no SUS, plano de saúde ou rede privada

O objetivo ideal é simples de dizer e difícil de alcançar: controle completo das crises com o mínimo de efeitos adversos.

Levetiracetam

O levetiracetam é uma das medicações mais usadas atualmente. Atua ligado à proteína SV2A da vesícula sináptica e tem perfil favorável de interações medicamentosas.

Costuma ser considerado em crises focais e em algumas epilepsias generalizadas, incluindo situações com crises tônico-clônicas e mioclônicas. Também é usado como terapia adicional em casos refratários.

Pontos fortes

  • Poucas interações com outros remédios
  • Titulação relativamente simples
  • Pode ser útil em diferentes tipos de crise
  • Geralmente não exige monitorização de nível sérico de rotina

Cuidados

  • Pode causar sonolência, tontura ou fadiga
  • Em alguns pacientes, pode piorar irritabilidade, ansiedade, impulsividade ou sintomas depressivos
  • A resposta comportamental deve ser acompanhada, especialmente em pacientes com histórico psiquiátrico

Lamotrigina

A lamotrigina é uma opção importante em epilepsias focais e em algumas epilepsias generalizadas. É frequentemente lembrada quando se deseja uma medicação com menor impacto cognitivo e perfil mais favorável em mulheres com possibilidade de gestação, sempre com planejamento individual.

Pontos fortes

  • Boa tolerabilidade para muitos pacientes
  • Menor tendência a sedação em comparação com algumas medicações mais antigas
  • Pode ser útil em crises focais e generalizadas
  • Perfil relevante em pacientes com comorbidade de humor

Cuidados

  • Precisa ser aumentada gradualmente
  • Pode causar rash cutâneo; raramente, reações graves de pele
  • Interage com valproato, que pode elevar seus níveis
  • Durante a gestação, seus níveis podem cair e exigir acompanhamento mais próximo

O erro comum é ter pressa. Lamotrigina é uma medicação que exige paciência na introdução para reduzir risco de efeitos adversos cutâneos.

Carbamazepina e oxcarbazepina

Carbamazepina e oxcarbazepina são clássicas no tratamento de crises focais, com ou sem evolução para crise tônico-clônica bilateral.

Pontos fortes

  • Boas opções para epilepsias focais
  • Experiência clínica ampla
  • Disponibilidade e custo geralmente mais acessíveis

Cuidados

  • Podem causar tontura, sonolência, visão dupla, desequilíbrio e rash
  • Carbamazepina tem muitas interações medicamentosas por indução enzimática
  • Oxcarbazepina pode causar hiponatremia, especialmente em idosos ou em associação com certos medicamentos
  • Podem piorar crises de ausência e mioclônicas em algumas epilepsias generalizadas

Essas medicações podem ser excelentes quando a epilepsia é focal, mas não são escolhas universais.

Ácido valproico, valproato e divalproato

O valproato é uma medicação de amplo espectro e historicamente uma das mais eficazes para epilepsias generalizadas, incluindo crises tônico-clônicas, ausências e mioclonias. Também pode ser usado em algumas epilepsias focais.

Pontos fortes

  • Amplo espectro de ação
  • Muito eficaz em várias epilepsias generalizadas
  • Útil em epilepsia mioclônica juvenil e crises de ausência, quando bem indicado

Cuidados

  • Pode causar ganho de peso, tremor, sonolência, queda de cabelo, alterações hepáticas e redução de plaquetas
  • Pode estar associado a síndrome dos ovários policísticos
  • Tem risco importante em gestação, incluindo malformações e prejuízo do neurodesenvolvimento fetal
  • Deve ser evitado sempre que possível em mulheres com potencial de engravidar, salvo situações em que o benefício seja claramente maior e a decisão seja compartilhada

Esse é um dos pontos mais importantes do tratamento da epilepsia: mulheres em idade fértil não devem usar valproato sem uma conversa franca sobre riscos, contracepção e alternativas.

Topiramato

O topiramato é usado em crises focais e em alguns tipos de epilepsia generalizada. Também pode ajudar em pacientes que têm enxaqueca associada, já que é uma medicação usada na prevenção da enxaqueca.

Pontos fortes

  • Pode ser útil em crises focais e tônico-clônicas generalizadas
  • Pode favorecer perda de peso em alguns pacientes
  • Tem papel em situações específicas de epilepsia de difícil controle

Cuidados

  • Pode causar lentificação do pensamento, dificuldade de encontrar palavras e prejuízo de atenção
  • Pode causar formigamentos, perda de peso excessiva, alteração de humor e cálculo renal
  • Exige cuidado em mulheres com possibilidade de gestação
  • Pode não ser uma boa escolha para quem já tem queixa cognitiva importante

O topiramato é um bom exemplo de medicação que pode ser excelente para um paciente e ruim para outro, dependendo do perfil.

Lacosamida

A lacosamida é uma opção usada principalmente em crises focais, tanto como terapia adicional quanto, em alguns contextos, como alternativa em monoterapia.

Pontos fortes

  • Boa opção para crises focais
  • Menos interações medicamentosas do que alguns fármacos mais antigos
  • Pode ser útil quando há falha ou intolerância a outras opções

Cuidados

  • Pode causar tontura, sonolência e desequilíbrio
  • Deve ser usada com atenção em pacientes com alterações de condução cardíaca ou uso de medicações que afetam o ritmo do coração

Fenitoína

A fenitoína é uma medicação antiga, ainda muito usada em alguns contextos, especialmente em ambiente hospitalar e no manejo de crises agudas ou estado de mal epiléptico.

Pontos fortes

  • Experiência clínica extensa
  • Uso importante em situações agudas selecionadas
  • Baixo custo

Cuidados

  • Janela terapêutica estreita
  • Muitas interações medicamentosas
  • Pode causar sonolência, tontura, alteração de coordenação, crescimento gengival, alterações de pele e efeitos ósseos a longo prazo
  • Não costuma ser a primeira escolha moderna para muitos pacientes em tratamento crônico ambulatorial

Fenobarbital

O fenobarbital também é uma medicação antiga e de baixo custo, ainda utilizada no Brasil e em muitos países por sua disponibilidade.

Pontos fortes

  • Ampla experiência clínica
  • Baixo custo
  • Pode ser útil em cenários específicos

Cuidados

  • Pode causar sonolência, lentificação cognitiva, alteração de comportamento e sintomas depressivos
  • Tem interações medicamentosas
  • A retirada abrupta pode provocar crises graves
  • Em crianças e idosos, os efeitos cognitivos e comportamentais merecem atenção especial

Clobazam e clonazepam

Clobazam e clonazepam pertencem ao grupo dos benzodiazepínicos. São usados como tratamento adicional em algumas epilepsias e, em certas situações, como estratégia de curto prazo para períodos de maior risco de crise.

Pontos fortes

  • Podem reduzir crises em associação a outras medicações
  • Úteis em síndromes específicas e situações selecionadas
  • Podem ter papel em planos de resgate, conforme orientação médica

Cuidados

  • Sonolência, queda, alteração de memória e tolerância ao longo do tempo
  • Risco de dependência
  • Retirada abrupta pode piorar crises

Não são remédios para serem interrompidos de um dia para o outro.

Etossuximida

A etossuximida é uma medicação mais específica, usada principalmente em crises de ausência típica, especialmente em crianças.

Pontos fortes

  • Boa eficácia em ausência típica
  • Pode ser uma opção quando esse é o tipo predominante de crise

Cuidados

  • Pode causar desconforto gastrointestinal, sonolência, dor de cabeça e alterações de humor
  • Não trata todos os tipos de epilepsia

Quando a criança tem ausência típica pura, a estratégia pode ser diferente daquela usada em crises tônico-clônicas ou focais.

Vigabatrina

A vigabatrina é usada em situações específicas, como espasmos epilépticos, especialmente quando associados à esclerose tuberosa, e em epilepsias refratárias selecionadas.

Pontos fortes

  • Papel importante em algumas epilepsias da infância
  • Pode ser decisiva em cenários muito específicos

Cuidados

  • Pode causar alteração de campo visual
  • Exige acompanhamento especializado
  • Não é uma medicação de uso amplo para qualquer epilepsia

Canabidiol

O canabidiol, ou CBD, ganhou espaço no tratamento de epilepsias de difícil controle. Mas é importante separar duas coisas: canabidiol não é tratamento para qualquer epilepsia e não deve ser visto como substituto simples das medicações anticrise tradicionais.

A evidência mais consistente envolve o uso de canabidiol purificado como terapia adicional em síndromes epilépticas farmacorresistentes, especialmente:

  • Síndrome de Dravet
  • Síndrome de Lennox-Gastaut
  • Complexo da Esclerose Tuberosa

Nesses cenários, o canabidiol pode reduzir a frequência de crises em parte dos pacientes, geralmente como adjuvante, isto é, associado a outras medicações. Ele costuma ser considerado quando já houve falha de tratamentos bem indicados e em dose adequada.

Pontos fortes

  • Pode ajudar em epilepsias farmacorresistentes específicas
  • Tem evidência melhor em Dravet, Lennox-Gastaut e Esclerose Tuberosa
  • Pode ser uma alternativa quando múltiplas medicações já falharam
  • É administrado por via oral, o que facilita o uso em alguns pacientes

Cuidados

  • Pode causar sonolência, diarreia, redução de apetite, fadiga e alteração de comportamento
  • Pode elevar enzimas do fígado, especialmente quando usado junto com valproato
  • Pode aumentar sonolência quando associado ao clobazam
  • Exige checagem de interações medicamentosas
  • Deve ter procedência regular, concentração conhecida e acompanhamento médico

Um ponto prático: produtos com nomes parecidos podem ter concentrações muito diferentes de CBD, quantidades variáveis de THC e padrões distintos de controle de qualidade. Por isso, “usar canabidiol” não é uma informação suficiente. O neurologista precisa saber exatamente qual produto, concentração, dose, via de uso, composição e origem.

E o canabidiol no Brasil?

No Brasil, a Anvisa atualizou em 2026 o marco regulatório de produtos de cannabis para uso medicinal e regulamentou etapas de produção com fins medicinais. Há produtos regularizados que podem estar disponíveis em farmácias e drogarias, além de fluxos específicos de importação e protocolos estaduais em algumas situações.

Mesmo assim, o acesso ainda é heterogêneo. Pode depender da indicação, do produto, da disponibilidade local, de protocolos estaduais, de custo e de documentação médica de epilepsia farmacorresistente.

O mais importante: canabidiol não deve ser comprado de origem duvidosa, manipulado sem rastreabilidade ou usado sem plano de monitorização. Em epilepsia, a diferença entre um produto controlado e um produto irregular pode significar perda de controle das crises.

Outras medicações

Além das opções acima, existem medicações como brivaracetam, perampanel, pregabalina, zonisamida, eslicarbazepina, primidona, gabapentina e cenobamato, cada uma com indicações, restrições, custos e disponibilidade próprios.

Algumas são mais usadas como terapia adicional. Outras ficam reservadas para epilepsias refratárias ou síndromes específicas. O fato de uma medicação ser “mais nova” não significa automaticamente que ela seja melhor para todos.

Resumo prático por tipo de crise

Situação clínica Medicações frequentemente consideradas
Crises focais Lamotrigina, levetiracetam, carbamazepina, oxcarbazepina, lacosamida, topiramato, zonisamida
Crises tônico-clônicas generalizadas Lamotrigina, levetiracetam, valproato, topiramato
Crises de ausência Etossuximida, valproato, lamotrigina em situações selecionadas
Crises mioclônicas Levetiracetam, valproato, topiramato, outras opções conforme a síndrome
Síndromes farmacorresistentes específicas Canabidiol em Dravet, Lennox-Gastaut e esclerose tuberosa, quando bem indicado
Epilepsia refratária Combinações individualizadas, avaliação em centro especializado, dieta cetogênica, neuromodulação ou cirurgia em casos selecionados

Esse quadro não substitui avaliação médica. Ele serve para mostrar por que o mesmo remédio não serve para todos os pacientes.

O que existe no SUS?

O Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Epilepsia do Ministério da Saúde lista medicações como ácido valproico/valproato de sódio, carbamazepina, clobazam, clonazepam, etossuximida, fenitoína, fenobarbital, gabapentina, lamotrigina, levetiracetam, primidona, topiramato e vigabatrina.

Na prática, o acesso pode variar conforme indicação, documentação, disponibilidade local e fluxos da rede. O canabidiol, por sua vez, costuma seguir caminhos próprios: produtos regularizados, importação autorizada, protocolos estaduais específicos ou discussão judicial em casos selecionados.

Por isso, o relatório médico bem feito faz diferença: ele deve descrever tipo de crise, diagnóstico, tratamentos prévios, doses utilizadas, resposta, efeitos adversos, refratariedade e justificativa da escolha.

Nunca suspenda por conta própria

Um dos erros mais perigosos no tratamento da epilepsia é parar a medicação de repente porque as crises melhoraram.

A suspensão abrupta pode provocar recorrência de crises, acidentes, estado de mal epiléptico e perda de controle de uma epilepsia que estava estável. Quando a retirada é possível, ela precisa ser planejada, lenta e individualizada.

Também é importante não trocar genéricos, apresentações ou horários sem orientação quando isso coincidir com retorno de crises ou efeitos adversos. Pequenas mudanças podem importar em pacientes sensíveis.

Quando procurar ou rever o neurologista?

  • Primeira crise epiléptica
  • Crise com perda de consciência, queda ou ferimento
  • Crises apesar do uso correto da medicação
  • Efeitos adversos limitantes
  • Planejamento de gestação ou início de vida sexual em adolescentes
  • Uso de vários remédios ao mesmo tempo
  • Dúvida se os eventos são crise epiléptica, síncope, ansiedade ou outro diagnóstico
  • Sonolência excessiva, alteração de humor ou piora cognitiva após iniciar tratamento

O acompanhamento não serve apenas para renovar receita. Serve para confirmar o diagnóstico, ajustar a estratégia e proteger o paciente de riscos evitáveis.

Em resumo

As medicações para epilepsia são muitas, mas a escolha precisa ser precisa. Levetiracetam, lamotrigina, carbamazepina, oxcarbazepina, valproato, topiramato, lacosamida, fenitoína, fenobarbital, clobazam, clonazepam, etossuximida, vigabatrina e canabidiol têm papéis diferentes.

O melhor tratamento é aquele que controla as crises, preserva cognição, minimiza efeitos adversos, respeita o projeto de vida do paciente e cabe na realidade de acesso.

Se você tem epilepsia, teve uma primeira crise ou está com efeitos colaterais do tratamento, agende uma avaliação neurológica para revisar seu diagnóstico e seu plano terapêutico com segurança.


Fontes consultadas

Escrito e revisado por Dr. Brendow Mártin
Neurologista - CRM/CE 22318 · RQE 18935
Última revisão: 10/05/2026