A insônia é um dos transtornos neurológicos mais prevalentes no Brasil e no mundo. Estima-se que entre 30% e 40% dos adultos apresentem algum grau de dificuldade para dormir, e que cerca de 10% tenham insônia crônica com impacto significativo na qualidade de vida.

Apesar da seriedade do problema, o tratamento mais utilizado na prática ainda é o farmacológico de curto prazo — em especial, os benzodiazepínicos e as chamadas “drogas Z”, como o zolpidem. Esse padrão representa um problema clínico relevante, amplamente reconhecido pela literatura médica atual.

Neste artigo, você vai entender:

  • O que é insônia e como ela é classificada
  • Por que o Zolpidem e o Rivotril fazem mal no uso prolongado
  • Quais são os riscos dos remédios para dormir dessa classe
  • Quais são as alternativas modernas e mais seguras
  • Quando buscar um especialista

O que é insônia?

A insônia é definida como dificuldade persistente para iniciar ou manter o sono, ou como sono não reparador, associada a prejuízo funcional diurno — irritabilidade, cansaço, dificuldade de concentração, queda de desempenho.

Ela pode ser classificada quanto ao tipo:

  • Insônia de início: dificuldade para adormecer
  • Insônia de manutenção: despertar frequente durante a noite
  • Despertar precoce: acordar muito antes do horário desejado

E quanto à duração:

  • Aguda (ou de curto prazo): até 3 meses, geralmente associada a estresse ou evento identificável
  • Crônica: três ou mais noites por semana por mais de 3 meses

Benzodiazepínicos e drogas Z: o que são e por que são tão usados?

Benzodiazepínicos

Os benzodiazepínicos agem potencializando a ação do GABA, o principal neurotransmissor inibitório do sistema nervoso central. O resultado é sedação, relaxamento muscular e redução da ansiedade.

Os mais utilizados no Brasil para insônia, muitas vezes de forma inadequada, incluem:

  • Clonazepam (Rivotril)
  • Diazepam (Valium)
  • Lorazepam
  • Alprazolam (Frontal, Xanax)
  • Midazolam
  • Nitrazepam
  • Bromazepam (Lexotan)

O clonazepam merece destaque especial: é medicação com uso para alguns tipos de epilepsia e também para transtorno do pânico, mas é amplamente prescrito para insônia no Brasil — uso esse considerado off-label e não recomendado pelas diretrizes internacionais de medicina do sono.

Drogas Z (hipnóticos não benzodiazepínicos)

As chamadas drogas Z também agem nos receptores GABA-A, com mecanismo semelhante aos benzodiazepínicos, mas com maior seletividade. No Brasil, o principal representante disponível é:

  • Zolpidem (Stilnox e genéricos)

  • Outras opções disponíveis: Zopiclona (Imovane) e Eszopiclona (Prysma)

Apesar de inicialmente comercializado como mais seguro que os benzodiazepínicos, décadas de uso demonstraram que o zolpidem carrega riscos relevantes, especialmente com o uso prolongado.


Os malefícios do zolpidem e dos benzodiazepínicos

1. Dependência e tolerância

É o problema mais bem documentado dessa classe. Após poucas semanas de uso contínuo, o organismo desenvolve tolerância — ou seja, a mesma dose passa a produzir efeito menor. A resposta natural é aumentar a dose ou a frequência.

A dependência pode se instalar rapidamente, mesmo em pacientes que seguiram corretamente a prescrição inicial. Isso vale tanto para os benzodiazepínicos quanto para o zolpidem.

2. Síndrome de abstinência e insônia de rebote

A retirada abrupta de benzodiazepínicos pode desencadear uma síndrome de abstinência grave, com sintomas como:

  • Ansiedade intensa
  • Tremores
  • Sudorese
  • Insônia de rebote (pior que a original)
  • Convulsões — especialmente com benzodiazepínicos de meia-vida curta

A insônia de rebote é um fenômeno em que, ao suspender o medicamento, o sono piora temporariamente além do nível basal. Isso cria um ciclo vicioso que perpetua o uso.

3. Comprometimento cognitivo

O uso crônico de zolpidem e benzodiazepínicos está associado a:

  • Dificuldade de memória e aprendizado
  • Lentidão de raciocínio
  • Confusão mental
  • Prejuízo na atenção e concentração

Esses efeitos não ficam restritos ao período noturno. A sedação residual no dia seguinte — chamada de efeito carryover — afeta o desempenho no trabalho, na direção de veículos e nas atividades cotidianas.

Estudos de longo prazo indicam que o uso prolongado de benzodiazepínicos pode estar associado a um risco aumentado de declínio cognitivo, com discussões ainda em aberto sobre possível relação com demência.

4. Risco de quedas e fraturas

Em idosos, esse é um dos efeitos mais perigosos. A sedação residual, a hipotonia muscular e o comprometimento do equilíbrio aumentam significativamente o risco de quedas noturnas e fratura de quadril — evento associado a alta morbimortalidade nessa faixa etária.

Os benzodiazepínicos e o zolpidem constam na Lista de Beers, referência internacional de medicamentos potencialmente inapropriados para idosos, exatamente por esse risco.

5. Alterações comportamentais (especialmente com zolpidem)

O zolpidem é notório por provocar comportamentos automáticos durante o sono sem que o paciente tenha memória do ocorrido:

  • Sonambulismo
  • Comer durante o sono (sleep-eating)
  • Dirigir dormindo (sleep-driving)
  • Enviar mensagens ou fazer ligações sem recordação posterior

Esses episódios motivaram o FDA (agência regulatória americana) a emitir um alerta de caixa-preta (black-box warning) para o zolpidem em 2019, além de recomendação de redução das doses habituais, especialmente em mulheres — que metabolizam a substância mais lentamente.

6. Depressão respiratória

Benzodiazepínicos deprimem o drive respiratório, o que pode ser crítico em pacientes com apneia obstrutiva do sono não tratada — condição muito frequente entre pessoas com queixa de insônia. O uso conjunto com opioides ou álcool eleva ainda mais esse risco.

7. Alteração da arquitetura do sono

Uma ironia clínica importante: tanto os benzodiazepínicos quanto o zolpidem alteram a estrutura natural do sono. Eles reduzem o sono de ondas lentas (sono profundo) e o sono REM — as fases mais restauradoras. O paciente pode dormir mais horas, mas acorda com menos sensação de descanso.


Qual é o tratamento correto para insônia?

Primeira linha: Terapia Cognitivo-Comportamental para Insônia (TCC-I)

A TCC-I é reconhecida pelas principais diretrizes internacionais — incluindo a American Academy of Sleep Medicine e a British Sleep Society — como o tratamento de primeira linha para insônia crônica, com superioridade em relação aos medicamentos tanto em eficácia a longo prazo quanto em segurança.

Ela inclui técnicas como:

  • Restrição do sono: redução temporária do tempo na cama para aumentar a pressão de sono
  • Controle de estímulos: associar a cama exclusivamente ao sono
  • Higiene do sono: orientações de comportamento e ambiente
  • Relaxamento e mindfulness
  • Reestruturação cognitiva: trabalhar crenças disfuncionais sobre o sono

A TCC-I pode ser realizada presencialmente com psicólogo ou médico treinado, e versões digitais (aplicativos validados) já demonstram eficácia comparável em estudos clínicos.


Melatonina

A melatonina é um hormônio produzido pela glândula pineal em resposta à escuridão, com papel central na regulação do ritmo circadiano.

No Brasil, passou a ser regulamentada pela ANVISA como suplemento alimentar, com doses de até 0,5 mg por porção.

Indicações com evidência razoável:

  • Insônia associada a alteração do ritmo circadiano (jet lag, trabalho noturno)
  • Insônia em idosos (onde há declínio fisiológico da produção de melatonina)
  • Dificuldade de início do sono em crianças com autismo ou TDAH

Tem perfil de segurança favorável e não causa dependência. Seu efeito hipnótico é modesto em adultos jovens com insônia primária, sendo mais eficaz quando usada no contexto adequado.


Antagonistas dos receptores de orexina: a nova fronteira

Os antagonistas dos receptores de orexina representam o avanço mais significativo no tratamento farmacológico da insônia nos últimos anos.

A orexina (também chamada de hipocretina) é um neuropeptídeo que promove vigília e alerta. Os medicamentos dessa classe bloqueiam esse sistema, favorecendo o início do sono sem suprimir as fases naturais do sono.

Representantes disponíveis ou em expansão:

  • Suvorexant (Belsomra)
  • Lemborexant (Dayvigo)
  • Daridorexant (Quviviq) — o mais recente, aprovado na Europa e nos EUA

Vantagens em relação aos benzodiazepínicos e ao zolpidem:

  • Não causam o mesmo padrão de dependência
  • Preservam a arquitetura natural do sono (incluindo sono REM e sono profundo)
  • Menor risco de comprometimento cognitivo
  • Sem efeito de rebote significativo na descontinuação
  • Menor risco em idosos, em comparação com benzodiazepínicos

Ainda têm disponibilidade limitada e custo elevado no Brasil, mas representam a direção que a medicina do sono tem seguido.


Antidepressivos com efeito sedativo

Alguns antidepressivos são frequentemente utilizados em doses baixas para insônia, especialmente quando há comorbidade com depressão ou ansiedade:

  • Trazodona: amplamente utilizada no Brasil, com razoável perfil de segurança em doses baixas
  • Mirtazapina: útil em pacientes com insônia associada a depressão e perda de peso
  • Amitriptilina: sedativa, mas com muitos efeitos colaterais anticolinérgicos; pouco recomendada em idosos
  • Doxepina em dose baixa (3 a 6 mg): aprovada pelo FDA para insônia de manutenção; não disponível nessa formulação no Brasil

Nenhum desses medicamentos é formalmente aprovado para insônia primária no Brasil, mas são amplamente utilizados na prática com base em evidências de eficácia.


O papel da investigação do sono

Nem toda insônia é “insônia primária”. Antes de iniciar qualquer tratamento, é essencial descartar causas subjacentes:

  • Apneia obstrutiva do sono: muito frequente e frequentemente confundida com insônia
  • Síndrome das pernas inquietas: sensação desagradável nos membros que atrapalha o início do sono
  • Transtorno de ansiedade ou depressão
  • Doenças clínicas: hipertireoidismo, dores crônicas, noctúria, refluxo
  • Uso de substâncias: cafeína, álcool, nicotina, corticoides, estimulantes

A polissonografia pode ser necessária em casos selecionados para diagnóstico preciso.


Quando procurar um neurologista ou especialista em sono?

  • Insônia persistente há mais de 3 meses
  • Uso contínuo de medicação para dormir sem orientação especializada
  • Dificuldade de suspender benzodiazepínicos ou zolpidem
  • Suspeita de apneia do sono (ronco, pausas respiratórias, sonolência diurna)
  • Sintomas de pernas inquietas
  • Impacto relevante no trabalho, humor ou cognição

A insônia crônica sem tratamento adequado está associada a maior risco de depressão, ansiedade, doenças cardiovasculares e comprometimento cognitivo a longo prazo. Buscar ajuda especializada faz diferença.


Conclusão

O zolpidem, o Rivotril e os demais medicamentos da classe dos benzodiazepínicos e drogas Z oferecem alívio rápido, mas carregam riscos sérios quando utilizados de forma prolongada: dependência, comprometimento cognitivo, alteração da arquitetura do sono, risco de quedas e comportamentos automáticos sem memória.

A boa notícia é que existem alternativas eficazes e mais seguras — a TCC-I como pilar não farmacológico, e opções como os antagonistas da orexina para quem necessita de suporte medicamentoso com menor risco de dependência.

O tratamento da insônia evoluiu. O paciente merece ter acesso a essa evolução.


Escrito e revisado por Dr. Brendow Martin
Neurologista — CRM/CE 22318 · RQE 18935
Última revisão: 20/05/2026