Nos últimos dias, muitos pacientes em uso de Emgality® (galcanezumabe) começaram a receber a notícia de que o medicamento está sendo descontinuado no Brasil. Para quem finalmente havia encontrado uma medicação eficaz para controlar a enxaqueca, a reação é compreensível: preocupação, insegurança e a pergunta inevitável - “e agora?”.

A resposta curta é: não interrompa o tratamento por conta própria e não tente substituir a medicação sem orientação médica.

A resposta completa exige entender o que foi anunciado, o que isso significa na prática e quais caminhos podem ser discutidos com o neurologista.

O que aconteceu com o Emgality no Brasil?

O comunicado público disponível no canal de atendimento da Libbs informa que o Emgality foi descontinuado nas apresentações de 120 mg/mL e 100 mg/mL, com notificação à Anvisa realizada em 04/05/2026.

Segundo o comunicado, os produtos ainda podem ser encontrados em farmácias até a finalização dos estoques disponíveis e podem ser utilizados normalmente, desde que respeitado o prazo de validade da embalagem.

Também foi informado que, a partir de 01/06/2026, não serão realizadas novas adesões ao Programa de Pacientes. Pacientes que aderirem ao programa até 31/05/2026 permanecerão elegíveis aos benefícios previstos, condicionados à disponibilidade de estoque no mercado.

Isso é importante: não se trata, até o momento, de um alerta de segurança ou de uma retirada por problema de qualidade divulgado ao público. O que foi comunicado é uma descontinuação comercial das apresentações do medicamento no país.

O que é o Emgality?

O Emgality é o nome comercial do galcanezumabe, um anticorpo monoclonal que atua bloqueando a atividade do CGRP, uma molécula envolvida na fisiopatologia da enxaqueca e de algumas cefaleias trigêmino-autonômicas.

No Brasil, ele tinha uso aprovado em duas situações principais:

  • Prevenção da enxaqueca em adultos com pelo menos quatro dias de enxaqueca por mês, na apresentação de 120 mg/mL
  • Prevenção de crises durante o período de salvas em adultos com cefaleia em salvas episódica, na apresentação de 100 mg/mL

Na prática, era uma das opções modernas para pacientes com crises frequentes, incapacitantes ou com falha/intolerância a tratamentos preventivos tradicionais.

Isso significa que o tratamento acabou?

Não necessariamente.

Significa que será preciso planejar a continuidade do cuidado. Para alguns pacientes, ainda haverá estoque por um período. Para outros, a dificuldade de acesso pode aparecer rapidamente, especialmente porque se trata de um medicamento refrigerado, de alto custo e com distribuição mais limitada.

O ponto mais importante é evitar uma interrupção abrupta sem estratégia. Em pacientes que tinham bom controle com o galcanezumabe, a suspensão sem transição pode levar ao retorno gradual das crises, aumento do uso de analgésicos e risco de cronificação da dor.

Se você usa Emgality, o melhor momento para conversar com seu neurologista é antes da última dose disponível, não depois que as crises voltarem.

O que pacientes em uso devem fazer agora?

1. Confirme seu estoque real

Veja quantas doses você tem, a data de validade e as condições de armazenamento. O Emgality deve ser mantido refrigerado conforme a bula. Não vale a pena “garantir estoque” se a conservação não puder ser feita corretamente.

2. Entre em contato com o programa ou com a farmácia

Pacientes vinculados a programas de suporte devem confirmar diretamente as regras atualizadas, prazos e disponibilidade. Como a situação depende de estoque, a resposta pode variar com o tempo.

3. Agende uma revisão com antecedência

Leve para a consulta:

  • Frequência atual das crises
  • Número de dias de dor por mês
  • Uso de medicação de resgate
  • Efeitos adversos prévios a preventivos
  • Resposta ao Emgality
  • Comorbidades como ansiedade, insônia, hipertensão, obesidade, depressão ou bruxismo

Essas informações ajudam a escolher a melhor alternativa, em vez de simplesmente “trocar uma injeção por outra”.

4. Não altere intervalo ou dose sozinho

Esticar o intervalo entre aplicações para “fazer durar mais” pode reduzir o controle da doença. Antecipar doses também não deve ser feito sem orientação. A transição precisa respeitar o histórico clínico e o risco individual de retorno das crises.

Quais são as alternativas?

A melhor alternativa depende do tipo de cefaleia, da frequência das crises, do histórico de falhas terapêuticas e do acesso real ao tratamento.

Fremanezumabe

O fremanezumabe (Ajovy®) é outro anticorpo monoclonal anti-CGRP aprovado para tratamento preventivo da enxaqueca em adultos. Pode ser uma opção para alguns pacientes que estavam em uso de galcanezumabe, mas a troca deve ser individualizada.

Mesmo sendo da mesma classe, os medicamentos não são idênticos. Há diferenças de dose, apresentação, intervalo de aplicação, cobertura por planos e disponibilidade em farmácias.

Toxina botulínica tipo A (Botox®)

Para pacientes com enxaqueca crônica, definida por 15 ou mais dias de cefaleia por mês, a toxina botulínica tipo A continua sendo uma opção importante, com aplicação em pontos específicos da cabeça e região cervical, geralmente a cada 12 semanas.

Ela pode ser especialmente útil em pacientes com dor muito frequente, tensão cervical associada ou falha de múltiplos preventivos orais.

Preventivos orais

Apesar de menos “novos”, vários medicamentos orais continuam sendo pilares do tratamento preventivo da enxaqueca:

  • Topiramato
  • Amitriptilina ou nortriptilina
  • Venlafaxina
  • Propranolol ou outros betabloqueadores
  • Candesartana
  • Flunarizina
  • Valproato, em situações selecionadas

A escolha não deve ser automática. Um paciente com insônia pode se beneficiar de uma estratégia diferente de alguém com sobrepeso, hipertensão, depressão, cálculo renal, gestação planejada ou sonolência diurna.

Bloqueios anestésicos

Bloqueios de nervos pericranianos, como o bloqueio do nervo occipital maior, podem ser úteis em situações específicas: crise prolongada, transição entre tratamentos, cefaleia refratária ou necessidade de reduzir uso excessivo de analgésicos.

Eles não substituem sempre a profilaxia, mas podem ser uma ponte importante em pacientes selecionados.

E quem usava Emgality para cefaleia em salvas?

A cefaleia em salvas merece atenção especial. A apresentação de 100 mg/mL do Emgality era voltada para prevenção de crises durante o período de salvas episódica, com esquema diferente do usado na enxaqueca.

Se você tem cefaleia em salvas, não tente adaptar dose de outra apresentação, importar sem orientação ou substituir por conta própria. O manejo pode envolver estratégias como verapamil, corticoide em ponte, lítio em casos selecionados, oxigenoterapia e triptanos para crise, sempre com avaliação cuidadosa de contraindicações.

Aqui, mais do que nunca, a transição precisa ser planejada com um neurologista familiarizado com cefaleias.

O que evitar

  • Comprar medicamento de origem duvidosa pela internet
  • Usar produto importado sem checar regularidade, armazenamento e procedência
  • Trocar Emgality por outro anti-CGRP sem prescrição
  • Aumentar o uso de analgésicos para compensar a perda do preventivo
  • Esperar a enxaqueca voltar com força para procurar ajuda

O risco mais comum nessa fase não é apenas ficar sem uma medicação. É entrar em um ciclo de dor recorrente, uso excessivo de remédios de crise e perda do controle que havia sido conquistado.

Em resumo

A saída do Emgality do Brasil é uma notícia frustrante para muitos pacientes, especialmente aqueles que responderam bem ao tratamento. Mas ela não significa ausência de opções.

O caminho mais seguro é:

  • Confirmar disponibilidade e estoque
  • Não interromper por conta própria
  • Registrar a frequência das crises
  • Revisar o plano preventivo com antecedência
  • Escolher uma alternativa compatível com o seu perfil clínico

Tratamento de enxaqueca não é receita pronta. Quando bem conduzido, mesmo uma mudança forçada de medicação pode ser transformada em uma oportunidade para reorganizar o cuidado e reduzir o risco de recaída.

Se você usa Emgality e está preocupado com a continuidade do tratamento, agende uma avaliação neurológica para revisar seu plano de prevenção com segurança.


Fontes consultadas

Escrito e revisado por Dr. Brendow Mártin
Neurologista - CRM/CE 22318 · RQE 18935
Última revisão: 07/05/2026